Hoje acordei com medo de zumbis. Não dos que andam cambaleando, como se sofressem de deficiência respiratória, e que mantém os braços esticados. Temia os que correm maratonas e conservam dentes afiados.
Estava na garagem de casa, conversando com minha irmã e embrulhando alguns livros para não molharem. O outro sobrevivente que dividia a casa conosco apareceu e perguntou se era muito tarde para tomar banho. O relógio marcava cinco horas e eu disse que, se ele nos ajudasse a levar as cadeiras até o quarto, não teria problema.
Ao todo foram seis. Meia dúzia de cadeiras de metal claro com os estofados brancos. Eram leves e, com o trabalho em equipe, não tivemos dificuldades para subi-las. Fechei a porta e disse: “Tá, vai rápido pra esse banho que eu só vou tomar o meu amanhã”.
O sol se pôs e barulhos estranhos rondavam a casa. Minha irmã sentara-se na cama e observava perplexa os movimentos. “Desiste do banho e leva nossas coisas para a outra peça porque a porta não vai agüentar”. Eu estava com medo que a cabeça de um daqueles bichos nojentos passasse pelo vão da porta e ele me mordesse sem dó.
Meus dois companheiros jogavam nossos pertences para dentro da peça menor e eu me esforçava para segurar os demônios do lado de fora. “No três você larga e vem correndo pra cá”. Em menos de dois minutos levaram tudo o que era importante para o quartinho 3mx2m que antes deveria ser o closet do quarto de casal. Soltei a porta de entrada e corri. Não deu tempo de chegar até a outra.
Estava tão assustada que, quando acordei, demorei uns três ou quarto segundos para lembrar onde estava. Paredes laranja, mapa do Brasil e porta-retratos com rostos familiares. Levantei e vi que o celular acusava oito e cinqüenta e oito da manhã.
Uma Nova York vazia, com ruas cheias de carros mal estacionados, animais selvagens e construções decadentes. As imagens chamam a atenção, mas não são o foco da história do último ser humano do planeta. Na verdade, Eu sou a Lenda é mais um daqueles filmes sobre fé. A exemplo de Sinais, com Mel Gibson, tem como questionamento central a relação entre coincidências e destino.
O drama mostra o que restou da civilização humana após a disseminação de um vírus, que a princípio foi tido como a cura do câncer: 5,5 bilhões de pessoas morreram, e o resto se transformou em zumbi ou em comida para zumbis. Este é outro ponto em comum com Sinais, que aborda a invasão de extraterrestres, que também são devoradores de humanos. Além disso, os flashbacks e as cenas com “criaturas estranhas” oriundas da computação gráfica remetem ao filme de Gibson.
Will Smith não surpreende. O papel de cientista, que também é militar, segue o comportamento de oficial “machão” demonstrado em Eu, robô, e o esforço heróico utilizado em À Procura da Felicidade. Apesar disso, o personagem de Smith não perde a cara de debochado e o sarcasmo do famoso The Fresh Prince of Bel-Air.
Alice Braga literalmente não fede, nem cheira. A interpretação dela fica restrita a zero de expressão e poucas falas. Os destaques ficam por conta da participação brilhante de Sam, a cadelinha companheira do protagonista, e a trilha sonora composta por músicas do cd Legend, de Bob Marley. “Don´t worry about a thing, cause every little thing gonna be all right” gruda na ponta da língua após o término da sessão.
O reggae surpreende embalando as cenas, já que o gênero musical normalmente não é utilizado como trilha. Além disso, a ideologia de Marley ganha peso científico no filme. A expressão “Light up the Darkness” evoca a idéia de acabar com a escuridão – os zumbis, no caso –, levando-os à luz – que seria a cura para o vírus. Essa é a missão do personagem de Smith.
A moral da história é que Deus já planejou tudo. A humanidade pode destruir a vida ou detonar o planeta que tudo está escrito e meticulosamente esquematizado. A salvação está prevista desde o início e os heróis escolhidos a dedo. O ideal seria que não se citasse isso ao falar sobre aquecimento global, desmatamento, fome e falta de saneamento básico, pois não deixa de ser papel do ser humano tentar evitar a precoce destruição da vida.
Um célebre comentário de Bob Marley, que versa sobre o fato das pessoas que estão tentando fazer o mundo pior nunca tirarem um dia de folga, torna-se a mensagem central. Se os maus não tiram férias ao proliferar a escuridão pelo mundo, por que o salvador do planeta deveria tirar? No caso do filme, o esforço de Smith compensa.
Imperdível: Will Smith imitando as falas de Shrek.
