Tudo o que eu tô afim de falá e ninguém tá afim de ouví


Ei, táxi!
5 05UTC Janeiro 05UTC 2009, 7:27 PM
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As ruas de Porto Alegre abrigam 3.925 táxis. A maioria deles tem a lataria pintada de laranja, mas há também alguns brancos, que atendem ao aeroporto e antigamente cobravam tarifa diferenciada. A cidade conta com 168 pontos fixos e 135 livres, em 496.827 km² de área geográfica. São 362 habitantes para cada táxi.

Apesar disso, o número de taxistas supera 10.000. A maioria não dispõe de veículo próprio e trabalha para empresas ou aluga carro de terceiros. O meio de transporte individual divide espaço com a oferta de linhas de ônibus e lotações, que cobram tarifas de R$2,10 e R$3,50, respectivamente. Desde fevereiro de 2008, os taxímetros porto-alegrenses iniciam em R$3,10. Cada quilômetro rodado agrega R$1,55 ao total.

O serviço de transporte individual de passageiros é tão antigo quanto as civilizações. Com a aplicação do taxímetro, que taxa conforme a distância percorrida, os chamados carros de aluguel passam a ser conhecidos como táxis. A Lei nº 3.790, de 1973, regulamenta a atividade em Porto Alegre. Assim, para ser taxista não basta apenas possuir a um veículo, como também se torna obrigatório realizar cursos de capacitação e qualificação.

Em Brasília, os táxis oficiais disputam espaço com os carros particulares que fazem transporte ilegal de passageiros. Na rodoviária – como é conhecida a estação central de ônibus metropolitanos da capital federal, diferentemente de Porto Alegre, por exemplo – é possível constatar a presença de inúmeros veículos que realizam a atividade ilícita.

A cidade de São Paulo conta com 32.766 táxis licenciados, agregando o maior número nacional. Lá, são 1.253 habitantes por veículo, que têm lataria pintada de branco. A cidade possui também linhas de metrô subterrâneo e grande quantidade de veículos particulares, o que acarreta congestionamentos e conseqüentemente menor concentração de táxis per capita. O Rio de Janeiro, uma das cidades mais visitadas por turistas no país, abriga o maior volume de táxis. Há um carro amarelo com listras azuis para cada 180 pessoas.

O táxi é um meio de transporte conveniente, mas mais caro que os demais. Os taxistas podem ser comparados a pescadores, pois esperam sempre o próximo passageiro e reúnem histórias e passatempos diversos em seu ambiente de trabalho. Livres pelas ruas ou nas paradas, torcem pelos dias de chuva, véspera e retorno de finais de semana e feriados.

Uma constante é que as rodoviárias e aeroportos agrupam o maior número de táxis em qualquer lugar. Em Porto Alegre não é diferente. São 382 e 141 veículos, respectivamente, sendo os únicos a aceitarem pagamentos com cartão de crédito.

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Pedro Machado, 56 anos, 20 de profissão, o 2464

O táxi que dirijo é alugado. Divido a diária com outro motorista. Costumava trabalhar no ponto do aeroporto. Lá, os passageiros tem outro nível. São mais educados e fazem corridas mais longas. Mas o dono vendeu a frota e há dois anos tive que trocar aqui para a rodoviária. Por mim, tanto faz. Eu vou e volto pro ponto o dia todo.

Demora uns 15 minutos para chegar ao início da fila de novo. Enquanto isso, jogo cartas e damas com os colegas. Dá tempo também de tomar um cafezinho de vez em quando.

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 Jaqueline Lima, 32 anos, 10 de profissão, o 4612

Certa vez entrou uma mulher aos berros. Ela queria que eu seguisse um carro. Passamos a tarde perseguindo o marido dela, pois estava desconfiada de traíção. Eu tentava acalmar, dizia para não fazer barraco, não dar vexame. Ela gritava, chorava e dizia que iria matá-lo. A corrida foi cara, mais de cem reais, e não resultou em nada.

Divido o carro com meu pai. Ele que é o dono do corsa. Trabalho na rodoviária há dez anos. A gente paga uma mensalidade de R$56 para as despesas internas daqui. Mas eu gosto mesmo é de pegar passageiro na rua. Só fico no ponto em dia que não tem movimento.

Adoro a profissão. Antes eu era vendedora de loja, emprego sem muita emoção. Não me sinto excluída de forma alguma no ponto. Converso com os outros taxistas e não perco passageiro por ser mulher.

Esses dias um cara chegou e ordenou que eu seguisse um carro. Me contou que havia sido assaltado e queria alcançar os bandidos. Olhei para o vectra 2.2 que deveria perseguir e informei ao passageiro que meu carro é 1.0. Não valia a pena. Acabei deixando ele na delegacia de polícia.

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Osmar Lemanski, 53 anos, 6 de profissão, o 3952

Fui motorista de ônibus por 25 anos. Eu sou do tempo da lei antiga, que motorista só precisava trabalhar um quarto de século para se aposentar. Agora eu incremento meu orçamento como taxista.

O carro é alugado, mas eu sou o único motorista. Estou sempre aqui na rodoviária, é o melhor ponto da cidade. Táxi é chato de dirigir, pego muito trânsito e tenho que disputar espaço com esse monte de veículo, caminhonete e carroça que tem por aí. Ônibus é melhor. Tem corredor próprio, bem mais tranquilo.

Semana passada fui assaltado de novo. Foi a quarta vez. Dois motoqueiros encostaram do meu lado na sinaleira. Levaram dinheiro, celular e meu rádio. Esse tipo de coisa acontece direto com taxista. A minha sorte foi que nunca fizeram nada comigo. Desde sempre que somem táxis e até matam motoristas.

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Dirceu Machado, 66 anos, 36 de profissão, o 3906

O pessoal me chama de Borboleta por causa da minissérie da Globo, o Bem Amado. O prefeito da cidade construiu um cemitério e precisava de um morto pra inaugurar a obra. O assessor dele se chamava Dirceu e era caçador de borboletas. Daí, acabei denominado assim, graças ao Dirceu Borboleta.

Acho que 90% dos taxistas só conhecem pelo apelido. Eu fui um dos fundadores do primeiro serviço de rádio-táxi de Porto Alegre, o Cooptáxi. Por causa da rádio que fiquei famoso no meio.

Tenho táxi próprio. Carro recém comprado. Modelo 2009, ano 2008. Se eu fosse vender, valeria de 200 a 300 mil reais, incluindo a placa e espaço no ponto. Emplaquei em nove dias, com despachante particular. Pelo sindicato demora um mês. É bobagem pagar a mensalidade deles. Hoje não banco mais.

Sou um dos mais antigos aqui na rodoviária. Fora eu, deve ter mais uns três ou quatro que entraram na mesma época. Chego aqui às 4h todo dia. Às 11h, vou para casa almoçar e durmo até às 15h. Depois, retorno e fico até às 20h.



Isso tem que ter fim!
7 07UTC Fevereiro 07UTC 2008, 4:26 PM
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Um carro que ia de Curitiba para Florianópolis se chocou de frente com um caminhão, na BR 101. As condições de “reforma” da estrada propiciaram o acidente. Quatro jovens morreram. Ninguém estava bêbado, e um deles tinha 14 anos. Aliás, dois deles eram irmãos. Pretendiam pular carnaval em Floripa.

Não confio 100% na credibilidade da informação, pois não li isso em jornal, nem na Internet, e também não vi na tv. Minha mãe foi quem narrou o fato hoje no café da manhã. Acredito que seja verdade, mas talvez a narrativa não descreva fielmente os fatos.

Enfim, não cabe discutir quantos havia no carro e para onde estavam indo. Muito menos elencar o nome das vítimas de mais um carnaval. Certamente eles não foram os únicos a deixarem de viver depois de encarar uma das rodovias brasileiras. O que vale a pena discutir é o papel da mídia nisso tudo. Durante os cinco dias de carnaval eu só vi notícia de quem morreu. Nada sobre os vivos. Nada sobre quem viveu, quem festejou, quem foi prudente no carnaval.

A RBS, maior conglomerado de mídia do sul do país, acredita que presta um grande serviço à comunidade a partir de campanhas como “Isso tem que ter fim”. Como se a Sharon Menezes ou a Juliana Didone falando que não gostam de rapidinhas e de gente grudenta fosse adiantar grandes coisas.

Quem atenta para esse tipo de comercial com certeza não é o público alvo que a RBS almeja. Quem bebe, dirige mal, ultrapassa em faixa dupla e excede o limite de velocidade, está pouco se lixando se é a Sheron, a Juliana ou a tia do boteco da esquina que está dando conselhos na tv.

Não é fato comprovado, nem fruto de pesquisa empírica, mas me permito apresentar ocorrências que demonstram que a campanha da RBS está errada:

1. Quem financia os comerciais antitabagismo são as próprias empresas que produzem cigarros. Tudo bem que o governo as obriga a fazer isso, mas elas não devem se importar. Repetir alguma mensagem que lembre “cigarro”, “tabaco” e “fumaça” na tv, faz diferença. O telespectador lembra que cigarro existe, e que vendem na padaria perto de casa.

2. Outro exemplo é o recente surto de febre amarela. Duas pessoas ficam doentes, alguns macacos aparecem mortos e pronto: Fez-se o caos! Correria para os postos de saúde e falta de vacinas. Ninguém ouviu as notícias direito. Ninguém prestou atenção no fato de que a imunização durava dez anos. Teve muita gente que tomou superdose e passou mal depois.

3. Conversando com um gerente de uma loja de roupas, descobri que as semanas que registram mais vendas são aquelas nas quais os grandes magazines anunciam na tv. Anúncio da Renner ou da C&A, por exemplo, faz o público recordar que precisa de uma blusinha nova, que esqueceu de comprar presente de dia das mães ou que o filho está querendo um tênis.

Obviamente os causos acima citados refletem minha própria observação. Não é por isso que deixam de agregar alguma lógica. Até porque, na Antiguidade, os filósofos criavam dessa forma: Observando o mundo para construir o conhecimento.

Voltando à atualidade, retruco: Os comerciais da RBS só servem para evidenciar o fato de que se pode correr com um carro, que os automóveis são armas e que há inúmeras pessoas que não respeitam os limites. Além disso, é comprovado que seres humanos sentem prazer com a desgraça alheia. Sendo assim, a dor da perda demonstrada na tv tece uma realidade que não é minha.

Se alguma coisa tem que ter fim, que sejam os comerciais (mal feitos) da RBS. Se correr é o fim, repetir isso é o primeiro passo para mais desgraças.