Tudo o que eu tô afim de falá e ninguém tá afim de ouví


Parceiro até para entrevista em dia de chuva
11 11UTC Março 11UTC 2008, 4:31 PM
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“E quando a gente pode fazer a entrevista?”
“Que dia que tu pode?”
“Não, eu estou perguntando o dia que fica melhor pra ti.”

E foi marcada para depois da aula de Geologia Física, numa segunda-feira à tardinha – e não por ele. Mesmo com a tempestade que caía, não é do tipo que nega compromisso para chegar mais cedo em casa ou ir se encontrar com a namorada. Corre o risco de ficar ensopado na volta, mas não deixa ninguém na mão.

Com a sala de aula vazia, larga a mochila cuidadosamente em uma das carteiras e senta em outra. Avisa que a voz fica terrível no gravador: “Eu falo rápido e enrolado”. Veste o capuz do moletom vermelho, talvez para se proteger de supostas perguntas capciosas: “Tô com medo do que tu vai me perguntar”.

Tiago* não gosta do último sobrenome. Prefere que os professores não o citem na hora da chamada. Os amigos de infância o chamam de Monga, por causa das brincadeiras idiotas que costumava fazer. Os colegas da faculdade de Geografia o conhecem como Tiaconha.

Com 22 anos, acumula “mais de 22 mil” manias: “Eu acho que tenho TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo”. A mais antiga delas seria roer as cutículas, e os dedos comidos a comprovam. Não adiciona paranóias, vai as substituindo com o tempo: “Eu tenho uma mania de tirar uma mania e colocar outra”.

O jeito preocupado e atencioso rende elogios de meninas e meninos. Tielle Duas, companheira de classe, afirma que se surpreendeu: “Pensei que ele fosse alienado, mas quando começou a opinar na aula, vi que tem conteúdo”. O colega Evandro Previdi diz que Tiago não é espiado: “Se tu precisa de uma coisa e ele tiver, ele te dá”.

A postura de tratar todos bem é o que conquista quem se aproxima. “A questão não é ser simpático, é ter respeito”, afirma. Cumprimenta todos os vizinhos, até mesmo os “com cara de bunda que nunca dão oi”.

Elogios à parte, o que chama mais atenção e gera apelidos é o contato com a maconha. “Ele fuma pra caralho”, entrega Vagner Soares, amigo há 15 anos. O vício começou quando tinha 17 anos, e Tiago acha que faz bem: “Fico com a percepção mais aguçada e me organizo melhor”, argumenta.

 

* Os sobrenomes foram ocultados para preservar a identidade do perfilado.