Tudo o que eu tô afim de falá e ninguém tá afim de ouví


Uma rápida geral
16 16UTC Fevereiro 16UTC 2009, 5:36 PM
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A ocasião pede trajes especiais. Calças azuis, blusas largas e verdes, toucas brancas com luvas beges. Um verdadeiro desfile de cores pálidas sem trilha sonora. Não é baile de máscaras, mas todos as usam. O cheiro de álcool domina o ar. De repente, a tão aguardada adentra o salão. As luzes arrendondadas no teto tornam à convidada especial. Alguém pede que ela ocupe logo seu lugar: A maca no centro da sala.

Os lençóis são brancos e macios. Há um pequeno travesseiro sobre o qual encosta a cabeça e tenta relaxar. O avental que usa deixa as costas a mostra e é retirado para que o procedimento se inicie. O braço direito, esticado ao longo do corpo, recebe o medidor de pressão. São colados três adesivos redondos no peito. Posicionados estrategicamente para, ligados a cabos, lerem o que diz o coração. “Uma vez eu adivinhei o nome da menina que um paciente gostava só olhando no monitor. Nem ele acreditou”, brinca a doutora. A mão esquerda é picada pela agulha, e o líquido incolor da seringa nada pelo cano transparente a procura da veia.

“Não olha para mim senão vai sonhar comigo. É melhor pensar no Brad Pitt ou George Cloney. Se bem que eu acho que eles já eram”, diverte-se o dentista. A anestesista protesta, afirmando que Pitt e Cloney são eternos. A paciente ainda pode ouvir as risadas tímidas das enfermeiras, que queriam arriscar um palpite, mas não o fizeram a tempo. As luzes brilham um pouco mais do que antes, e as pálpebras não se sustentam. É hora de dormir.

Acordar depois de anestesia geral é uma experiência única. Deve ser algo próximo a ressusitação ou a casos de quase-morte. A cama de hospital nada lembra o gramado verde e úmido sobre o qual se andava. Ele recobre a montanha até o horizonte e lembra os desenhos de infância com aqueles vales intermináveis em forma de M. Não há tunéis, nem luzes no fim deles. Apenas o início da dor que não existia (ou que não era sentida até então).

A noção de abertura dos olhos é nula. Não se sabe mais como respira, nem qual o tom de voz mais adequado a uma CTI, muito menos se o coração está a bater. O esforço que se faz é para retornar ao sonho. “Está tudo bem. Já acabamos”, disse alguém. A enfermeira coloca os tubos verdes de oxigênio no nariz enquanto outra injeta um pouco mais de anestésico. “Deixa ela dormir”, alguém sugere.



Escrita Criativa em dia de chuva
29 29UTC Maio 29UTC 2008, 8:32 PM
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Na última aula de Escrita Criativa, o professor Charles Kiefer substituiu Assis Brasil. Mal os colegas ficaram sabendo de quem ministraria a aula, começaram os comentários. “Se o Assis é mansinho, Charles critica tudo”; “O Assis nem se importa que conversem em aula, mas o Charles pára de falar”.

Realmente, Charles Kiefer esboça mais ditatoriedade e é mais enérgico. Trouxe um conto do escritor que, segundo ele, ficaria em quarto lugar no “Top 10 melhores escritores brasileiros de todos os tempos”. Recomendou ainda o “melhor livro da literatura brasileira”, cujo o autor nenhum aluno presente conhecia.

Depois da leitura do conto e do debate em close read, Charles comentou: “Quanto mais diferente um casal é, menor é a duração do relacionamento”. Obviamente, o recado estava inserido no contexto da aula, algo que não pretendo reproduzir em meu breve comentário. Prosseguiu: “Tive uma dúzia de mulheres, fui casado vários vezes, tenho inclusive duas filhas com mulheres diferentes”. Nostalgicamente, remeteu a uma namorada que teve: “Era uma maravilha na cama, mas uma transa era equivalente a 28 dias aterrorizantes… a mulher enloquecia”, comentou com a turma.

O conto inspirou ainda comentários dos colegas. “Nenhum homem fica assistindo o jogo do Inter se a mulher se despe na frente da tv”; “O casal pode ter até brigado, mas basta a mulher tirar a blusa que fica tudo bem”; “No mínimo ela estava sempre se fazendo pra dar pro cara, até que ele cansou e rejeitou quando ela quis”.

Hilário. Uma das poucas boas aulas que tive em dias chuvosos.



O que aconteceu com a baleia?
10 10UTC Abril 10UTC 2008, 3:18 PM
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Na última aula de Escrita Criativa, ministrada pelo professor/escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, foi pedido que fizéssemos um texto explicando “O que aconteceu com a baleia?”. Inúmeras versões surgiram para o fato. Eis a minha descrita abaixo:

Depois de mais um domingo com almoço em família, a mãe e a avó juntam os restos e recolhem os pratos. As crianças correm para o pátio. Os adolescentes, ou “crianças maiores” como são chamados pela avó, disputam o controle remoto na sala. “O que eu faço com os ossos?”, questiona o pai. Ao ver o cachorro na porta, pensa que seria uma boa idéia dar ao Bilú um presente dominical.

Sábado foi dia de pescaria. Seu Adão levantou cedo, e pegou a térmica com café que a mulher preparara na noite passada. Já passava das 9h e nada de paixe. Às 15h voltou para casa com as mãos vazias. Quando entrou pela porta dos fundos, que dava direto na cozinha, a filha o surpreendeu: “Pai, corre lá pra praia que tão partindo a baleia”. Confuso e cansado, Adão obedeceu. Foi até a praia e avistou a multidão que se reunia com facões e serras.

“Tem pra todo mundo”, gritava o policial. Os pescadores que não faturavam há mais de duas semanas cortavam os pedaços do animal morto. Encalhada na praia desde a noite de sexta, a baleia não resistiu. Os ambientalistas sugeriram que fosse dividida entre os habitantes da ilha, já que saria muito trabalho, causando até maiores estragos, se fosse rebocada dali.

Depois de retornar à garagem de casa, munido de uma serra elétrica, seu Adão e o genro escolheram o pedaço que seria deles. Às 20h estava tudo resolvido. Pequenos restos de baleia sobraram na praia, e foi tudo colocado em uma balsa, com destino ao lixão da capital. As famílias de pescadores da pequena ilha de Guantatiba garantiram o almoço de domingo graças à baleia.

Ao final da aula, Assis Brasil completou: “Um escritor escreve sempre o mesmo livro”. Dessa forma, pediu que todos pensassem porque escreveram essa história para a baleia. Teve colega que fez o bicho virar mulher e gente que colocou-o pra entrevistar os moradores do fundo do mar. Outros preferiram descrever os habituais barcos “caça-baleias”. Eu fico pensando porque fiz da baleia pedacinhos.



Anklebitter
31 31UTC Agosto 31UTC 2007, 5:13 PM
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Aproximadamente 150 novas espécies são descobertas por ano. São mais de dois novos animais catalogados por semana. Seres que estavam vagando por aí e ninguém sabia. Algumas destas descobertas são feitas por cientistas e biólogos. Outras acontecem por acaso. 

Tudo começou nuam daquelas noites normais. A mãe põe ofilho na cama. Cobre com a coberta e pergunta se está com frio. Ele dizquenão e ela deseja uma boa noite. Normal. O cachorro sempre dorme no quarto com o menino. Tem uma caminha perto da janela. A mãe dá a última olhada no filho e fecha a porta. Mais normal ainda.

É uma noite de primavera, não está muito quente, nem muito frio. Afinal, foi um dia normal. De repente, algo começa a se mover em baixo das cobertas. Não faz ruído e se move devagar. Repentinamente, um grito. Um berro ensurdecedor: MAAAAANHÊÊÊ!! 

Nada acontece e o menino se levanta da cama. Tenta correr, mas o tornozelo esquerdo sangra. O cachorro late, mas se esconde no banheiro. O garoto abre a porta e corre desesperado pelo corredor. O intruso vai atrás. Mais um vez, o tornozelo do menino é mordido.  E depois, mais uma. E mais outra. A mãe chega e também é surpreendida. Mais um tornozelo destruído. Uma poça de sangue se forma no corredor da casa. Os gritos acordam os vizinhos que chamam a polícia. Os tornozelos sangram. O intruso se esconde.

Os policiais chegam e fazem uma busca na casa. Ao entrar no quarto do menino, com uma lanterna na mão, um novo grito. Mais um vítima para o mordedor de tornozelos.

ps: Conto lido na aula de Radiojornalismo III e inspirado em curta do programa On the Lot, do People and Arts.