Tudo o que eu tô afim de falá e ninguém tá afim de ouví


De castanholas e tamborins
15 15UTC Setembro 15UTC 2008, 10:24 PM
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Na manhã de hoje não parecia que o dia seria tão complicado. Pensei que a Taíse era quem estava com problemas, mas, na verdade, sou eu quem está.

Segue e-mail que recebi por volta das 10h e li logo em seguida.

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Caríssimos amigos,

Supero a vergonha da falta de atualização com que os tenho brindado e me ponho a dedilhar. Antes de mais nada, como vão vocês? O eco da menor notícia que me enviarem retumba como festa por dentro, quando der, encontrem um tempinho.

Saudade aperta quando começo a pensar no fim de ano e natal provavelmente longe da família, longe das festas estas todas que fazemos de toscos amigos secretos, churrascos de despedida, jantares de fim de ano, cerveja ou café de atualização de conversas. A vida por aqui deixou de dar voltas e dá piruetas! Me explico.

De verdade que morei com aquela espanhola que tinha um programa de culinária na televisão local e um filho de pescador italiano numa cobertura pequenita. Neste tempo comi carne de javali, crocodilo, avestruz, paella, também muita pasta, muita festa, jantares internacionais, viagens, e conhecendo e compartilhando coisas preciosas com gente de erasmus e intercâmbio, de corações e mentes abertas. Seis meses assim, dos quais desfrutei quase inteiros – pela primeira fez – apenas fazendo a faculdade graças ao esforço dos meus pais em repartir gastos. Então, julho tive um mês trabalhando num bar de gente mais velha, destes tios empresários que fumam charutos e pedem whisky puro caríssimo. Me amolei bastante, pensava que era mais fácil colocar-se atrás de um balcão e trocar idéias com clientes e servi-los ao mesmo tempo, mas me enganei. Brasileiro que está acostumado a fazer estágio na sua área sofre muito quando tem que deixar o que adora para fazer serviço de imigrante. Segui.

Vou quase acostumada com a vida aqui, mas ainda é uma estocada de espada quando espero uma gentileza, um favor, uma disposição e não vejo isso nas gentes. Tem um monte de espanhol com alma cordial e tem outros muitos com a postura de uma expressão muito comum aqui: “a mi me da igual”, que seria algo como “a mim pouco me importa”. Nestas indas e vindas entre um javali, una fiesta de pueblo, pouca chuva e bastante tempo livre, me apaixonei. Levo quase seis meses namorando um espanhol, que se chama Sergio, e me faz questionar-me se não trocaria a graça brasileira pelo flamenco castelhano. Vamos buscando respostas…

Enquanto isso aproveito para dizer que certamente todos tem casa em Madrid!!! Quando terminei meu tempo de estudo em Murcia vim a capital pois, depois de buscar um ex-superior de uma chefe minha (beijo especial, Dé) que trabalha na Espanha, tenho a oportunidade de fazer estágio outra vez no banco Santander, agora numa área que se chama Comunicação Divisão América e se trata de cuidar da imagem do banco em toda parte latina, seja em jornalismo, relações publicas ou publicidade. Vou vivendo dois anos de faculdade a cada semana de trabalho e aprendendo de estratégia e gestão estando diretamente ligada a presidência. Ou seja, vou bastante abençoada por Deus, pelo menos no quesito trabalho. Já tive problema com visto, caixa eletrônico que me tragou 300€, passagem de avião que quase não consegui renovar e mais de três semanas na casa de amigos publicitários espanhóis alojada enquanto buscava um teto sem o mínimo sucesso.

Pois que na Espanha, igual que no resto do mundo, estagiário ganha mal e vou apertando o cinto, o espartilho, e o que mais der para virar-me por aqui. Igual devem saber que os que estão aqui no continente ou pretendem vir tem pouso certo, como já disse, e meu ap é grande e está num lugar super bem comunicado, abaixo de lavapiés, o ditoso bairro dos barzinhos, e a um nada de distância do centro. Os espero até fins de janeiro!

MADRID Calle Ersillas 17 – 6C CEP 28005 (metros embajadores e acacias). Celular: 622 667 345.

Agora vivo com outro italiano, dessa vez arquiteto, e um casal de americanos que vem fazer doutorado em literatura comparada… Vou deslumbrada com as possibilidades culturais e o fato de ir de graça aos melhores teatros por ter amigo na produção. Hehe, alegria de estudante! Minha câmera querida sofreu uma avaria no sistema elétrico da lente e por isso o flickr segue desatualizado e a vida tem estado um pouco amarga até que junte uns trocados e troque de objetiva. Seleciono uma foto feita por um amigo mexicano numa de despedida em sua casa, bebendo vinho do Porto que trouxeram de Portugal e que tem um toque de melancolia com a qual vivo constantemente por estas ruas, mais o último registro do meu velho corte cabelo e o cálice que gostaria de brindar com cada um aqui copiado mas que me impede a distância e alimenta meus anelos de voltar.

Beijo exagerado e abraço de urso!,
Taíse