Tudo o que eu tô afim de falá e ninguém tá afim de ouví


Filosofia pessoal
20 20UTC Janeiro 20UTC 2009, 11:02 PM
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Ou trabalha ou fica bonita.

Se tiver os dois, é puta.



De castanholas e tamborins
15 15UTC Setembro 15UTC 2008, 10:24 PM
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Na manhã de hoje não parecia que o dia seria tão complicado. Pensei que a Taíse era quem estava com problemas, mas, na verdade, sou eu quem está.

Segue e-mail que recebi por volta das 10h e li logo em seguida.

*

Caríssimos amigos,

Supero a vergonha da falta de atualização com que os tenho brindado e me ponho a dedilhar. Antes de mais nada, como vão vocês? O eco da menor notícia que me enviarem retumba como festa por dentro, quando der, encontrem um tempinho.

Saudade aperta quando começo a pensar no fim de ano e natal provavelmente longe da família, longe das festas estas todas que fazemos de toscos amigos secretos, churrascos de despedida, jantares de fim de ano, cerveja ou café de atualização de conversas. A vida por aqui deixou de dar voltas e dá piruetas! Me explico.

De verdade que morei com aquela espanhola que tinha um programa de culinária na televisão local e um filho de pescador italiano numa cobertura pequenita. Neste tempo comi carne de javali, crocodilo, avestruz, paella, também muita pasta, muita festa, jantares internacionais, viagens, e conhecendo e compartilhando coisas preciosas com gente de erasmus e intercâmbio, de corações e mentes abertas. Seis meses assim, dos quais desfrutei quase inteiros – pela primeira fez – apenas fazendo a faculdade graças ao esforço dos meus pais em repartir gastos. Então, julho tive um mês trabalhando num bar de gente mais velha, destes tios empresários que fumam charutos e pedem whisky puro caríssimo. Me amolei bastante, pensava que era mais fácil colocar-se atrás de um balcão e trocar idéias com clientes e servi-los ao mesmo tempo, mas me enganei. Brasileiro que está acostumado a fazer estágio na sua área sofre muito quando tem que deixar o que adora para fazer serviço de imigrante. Segui.

Vou quase acostumada com a vida aqui, mas ainda é uma estocada de espada quando espero uma gentileza, um favor, uma disposição e não vejo isso nas gentes. Tem um monte de espanhol com alma cordial e tem outros muitos com a postura de uma expressão muito comum aqui: “a mi me da igual”, que seria algo como “a mim pouco me importa”. Nestas indas e vindas entre um javali, una fiesta de pueblo, pouca chuva e bastante tempo livre, me apaixonei. Levo quase seis meses namorando um espanhol, que se chama Sergio, e me faz questionar-me se não trocaria a graça brasileira pelo flamenco castelhano. Vamos buscando respostas…

Enquanto isso aproveito para dizer que certamente todos tem casa em Madrid!!! Quando terminei meu tempo de estudo em Murcia vim a capital pois, depois de buscar um ex-superior de uma chefe minha (beijo especial, Dé) que trabalha na Espanha, tenho a oportunidade de fazer estágio outra vez no banco Santander, agora numa área que se chama Comunicação Divisão América e se trata de cuidar da imagem do banco em toda parte latina, seja em jornalismo, relações publicas ou publicidade. Vou vivendo dois anos de faculdade a cada semana de trabalho e aprendendo de estratégia e gestão estando diretamente ligada a presidência. Ou seja, vou bastante abençoada por Deus, pelo menos no quesito trabalho. Já tive problema com visto, caixa eletrônico que me tragou 300€, passagem de avião que quase não consegui renovar e mais de três semanas na casa de amigos publicitários espanhóis alojada enquanto buscava um teto sem o mínimo sucesso.

Pois que na Espanha, igual que no resto do mundo, estagiário ganha mal e vou apertando o cinto, o espartilho, e o que mais der para virar-me por aqui. Igual devem saber que os que estão aqui no continente ou pretendem vir tem pouso certo, como já disse, e meu ap é grande e está num lugar super bem comunicado, abaixo de lavapiés, o ditoso bairro dos barzinhos, e a um nada de distância do centro. Os espero até fins de janeiro!

MADRID Calle Ersillas 17 – 6C CEP 28005 (metros embajadores e acacias). Celular: 622 667 345.

Agora vivo com outro italiano, dessa vez arquiteto, e um casal de americanos que vem fazer doutorado em literatura comparada… Vou deslumbrada com as possibilidades culturais e o fato de ir de graça aos melhores teatros por ter amigo na produção. Hehe, alegria de estudante! Minha câmera querida sofreu uma avaria no sistema elétrico da lente e por isso o flickr segue desatualizado e a vida tem estado um pouco amarga até que junte uns trocados e troque de objetiva. Seleciono uma foto feita por um amigo mexicano numa de despedida em sua casa, bebendo vinho do Porto que trouxeram de Portugal e que tem um toque de melancolia com a qual vivo constantemente por estas ruas, mais o último registro do meu velho corte cabelo e o cálice que gostaria de brindar com cada um aqui copiado mas que me impede a distância e alimenta meus anelos de voltar.

Beijo exagerado e abraço de urso!,
Taíse



Pré-visão
31 31UTC Agosto 31UTC 2008, 10:51 PM
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Eu sabia que se tratava de uma das últimas vezes que os veria. Talvez fosse a proximidade do término das aulas, que impediria os encontros diários, ou o dia dos namorados, que deixara o clima mais pesado naquela manhã de quinta-feira. Como de costume, a turma composta por sete se reuniu na hora do intervalo no pátio da faculdade. Enquanto Ari e Hermes contavam dos presentes que dariam a Carol e Cris, os descomprometidos Edisson e os Pedros combinavam a dita noite dos solteiros. Mas eu sabia que todos queriam mesmo era ter alguém especial para desejar feliz dia dos namorados.

Na saída, seis ficaram conversando mais um pouco sobre as fantasias que usariam na festa de arrecadação para a formatura de Publicidade, que aconteceria no sábado. Só Edisson foi embora mais cedo. Era seu primeiro dia dos namorados sozinho, depois de quatro anos. Dei carona para Hermes e, no caminho, falei que não era para eles brigarem comigo, porque eu estava com a impressão que começaria a me afastar, já que abomino despedidas. Farejava algo errado no ar.

No almoço, minha irmã comentou o sonho que teve. Dizem que dente é presságio de morte. A minha temática noturna de quarta para quinta foi a mesma. Uma boca com dentes tortos, disformes e frouxos. Eu os balançava de leve, mas não queria que caíssem. Os meus permaneceram, mas Diandra disse que acordou banguela.

No começo da noite, voltei à faculdade e encontrei Edisson novamente. Andamos com as mesmas pessoas há quatros anos, mas começamos a conversar somente em 2008. Ele é um cara tímido, que passa a impressão de arrogante. Loiro, de olhos verdes e topete sempre bem penteado, é conhecido como o Alemão. Tem rosto redondo e uma ruga profunda que corta a testa de uma ponta a outra. Aos 22 anos, com cerca de 1m75cm e 70 kg, faz sucesso entre o público feminino, mas expressa pouca confiança quando sóbrio. O sorriso está sempre pintado na cara e a barba quase nunca cresce. O celular tira fotos e faz vídeos, mas nunca tem crédito para completar uma ligação.

Logo que saí do bar da faculdade, vi ele procurando por um rosto conhecido. Como de hábito, sentou com a agenda em baixo do braço e ficou mexendo no celular. Me aproximei e notei a cara de desânimo daquele que acabara de ter um dos piores dias de sua vida. Me contou sobre as cervejas que tomara para não pensar na ex-namorada e da festa que faria mais tarde, em comemoração à solteirice. Antes da aula, foi comigo comprar o ingresso para sábado. Não levei fé que ele iria, pensei que não se tratava do tipo de festa que gostava de freqüentar. Em dúvida quanto à fantasia, disse que não conseguia se imaginar naquela festa. Às 19h40 nos despedimos e foi a última vez que o vi antes do incidente.

Edisson namorou por três anos e meio a vizinha Marina. O relacionamento acabara há alguns meses, mas ele ainda nutria carinho pela ex. Ela o substitui por outro, logo após o rompimento. Desde então, ele passou a freqüentar assiduamente a noite da cidade. A fama de galanteador é confirmada pelos companheiros de balada, muito embora ele insista em afirmar que quer ser parte de um casal novamente.

Estava chateado desde o início da semana. Na segunda, 9, falou com a ex por telefone e chorou escondido no carro. Na terça e na quarta, sofreu por antecipação o dia dos namorados. Na quinta, 12, encontrou com o ex-sogro e falou duas vezes com Marina. Ela ouvira de casa o cantar dos pneus do carro dele e telefonou xingando: “Quer te matar?”. Desde o começo de 2008, a ex avisava para ele tomar cuidado quando dirigia.

Eu acordei com uma sensação estranha no sábado. Talvez fosse porque ainda não tinha fantasia para a noite ou por causa da chuva e do frio, que castigavam a cidade desde o início do mês. Acertei de ir à festa com uma colega e iria encontrar com a turminha lá. Quando a busquei, achei que deveria ligar para Pedro – um dos sete – para saber que horas chegaria. Em casa, disse a ela que esperasse um pouco, pois faria uma ligação. Ela questionou o porquê e eu disse apenas que precisava falar com ele antes da festa.

Sábado, 14, perto das 21h:

- “Alô, o Pedro está?”
- “Não, ele não está.”
- “E ele volta mais tarde?”
- “Na verdade, não.”
- “Então ele já saiu para a festa ou está na casa do Edisson?”
- “Aconteceu um incidente ontem à noite. Ele e o Edinho estavam voltando duma festa e bateram com o carro.”

Permaneci em silêncio por alguns longos segundos antes de perguntar ao pai de Pedro se estava tudo bem. Descobri que o acidente ocorreu na madrugada de sábado, depois da noite de sexta-feira, 13. Haviam ido com mais dois colegas para a Cidade Baixa, bairro porto-alegrense conhecido por abrigar diversas opções de entretenimento noturno. Na volta, pararam para comer no Mc Donalds e deixaram os caronas do banco de trás em casa. Seguiram pela Avenida Salvador França em direção à Zona Sul da cidade. Após uma curva feita em alta velocidade e de uma ultrapassagem que assustou o motorista, a direção hidráulica do Clio gris-cendré fez com que Edisson perdesse o controle do veículo.

O Clio era seu segundo carro, ganhara o primeiro com 18 anos. Único filho de coronel aposentado da Brigada Militar, morava em apartamento na Zona Sul da cidade. Fazia estágio à tarde e pretendia se formar publicitário no final de 2008. Há alguns meses, Edisson pensava constantemente em acidentes de carro. Desenvolvia com os colegas de curso um projeto sobre trânsito seguro e ficava imaginando como seria se alguém da turma morresse. Antes de dormir, concebia sua imagem em uma cama de hospital, respirando com o auxílio de tubos.

Ele sentia que tudo andava perfeito demais. Trocara de celular e comprara o carro novo há pouco tempo. Apesar do clima pesado pelo qual passou no dia dos namorados, seu problema mais grave naquela semana era decidir a fantasia para a festa de sábado. A vida estava redonda e a sensação era que algo ruim aconteceria em breve.

Edisson tinha certeza que não iria morrer. Não neste acidente. Quando perdeu o controle do carro, só torceu para que este batesse logo e parasse. Poucos minutos após o encontro com o poste, Edisson e Pedro foram colocados em ambulâncias separadas e seguiram para hospitais distintos. O amigo permaneceu duas noites internado. Ele ficou quase uma semana, fez cirurgia no braço e teve tempo para conhecer outros pacientes. Experimentou o abandono em uma emergência e realizou dezenas de exames sem saber se seus pais estavam cientes de onde ele estava. Se preocupou com o amigo, que não teve mais notícias após abandonar o carro, e temeu possíveis seqüelas físicas.

Depois que o pai de Pedro me explicou no telefone o que se sucedera na madrugada de sábado, liguei para ele no hospital. A fala baixa e a voz afetada pela rouquidão me assustaram, mas a visita na tarde de domingo me fez crer que a recuperação era iminente. O caso de Edisson foi um pouco mais grave, mas não incluiu tubos respiratórios no prontuário.

O sempre bem vestido e perfumado habitou por seis dias um leito de hospital público, trajando abrigo azul marinho manchado de água sanitária e envolto em cobertores emprestados da enfermaria. O lanche da tarde incluía café com leite e maçã, que nunca marcaram presença em seu cardápio caseiro. Um dos colegas de quarto foi baleado por traficantes na canela e o outro aguardava pela cirurgia há seis meses. A mãe se manteve sempre presente, mimando o filhote ferido. Ao todo, 12 amigos o visitaram durante as férias forçadas.

Duas semanas após, a vida segue. Só as marcas do cinto de segurança e as dores no peito permanecem. O braço com gesso branco não receberá assinaturas, pois as riscarias não combinam com seu estilo. Nos próximos três meses, Edisson não poderá dirigir, mas não demonstra se importar. Repete que, assim como eu, sempre quando mentaliza uma coisa, ela acontece. Acredito que ele não irá se formar no final de 2008, mas creio que voltará a levar os amigos para a noite antes do prescrito pelos médicos.



Verdades Contestáveis
5 05UTC Maio 05UTC 2008, 3:17 PM
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Mário Quintana gostava de ter pesadelos. Segundo Luiz Antonio de Assis Brasil, escritor e professor, o poeta gaúcho costumava comer seis salsichões com café preto. “É bom para ter pesadelos”, dizia.

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Juremir Machado da Silva foi reprovado em teste psicotécnico. Um dos pré requisitos para conseguir otrabalho de balconista de farmácia era a tal prova. O escritor e professor não obteve sucesso.

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Ao dirigir a minissérie O Tempo e o Vento, o também ator Paulo José iria gravar uma cena com seis gaúchos em roda tomando chimarrão. A produção prontamente arranjou seis cuias e seis bombas.

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Luiz Antonio de Assis Brasil vendeu o direito de reprodução de um dos seus livros à Rede Globo. Por uma gorda quantia, assinou o contrato. O prazo expirou e o roteiro não chegou a ser adaptado.



Dona Fernanda I
18 18UTC Janeiro 18UTC 2008, 3:20 PM
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- Que feio duas meninas tão bonitas mentindo desse jeito!

Eu já não gostava muito do cara do 403 e ele ainda me larga uma destas. Eu devia ter uns 12. A Diandra, minha irmã, 9. Era uma tarde de verão nas férias de verão. Estava superquente e nada de praia naquele começo de dezembro. O pai estava cheio de trabalho, e a casa em Nova Tramandaí teria que nos esperar até o natal.

Provavelmente este tenha sido o ano no qual ganhamos o Suky de presente. Um cachorrinho novinho em folha (com fita e tudo!) no dia 23. Honestamente, meu sonho de consumo na década passada. Apesar disso, o calendário contava apenas 10 dias no décimo segundo mês de 1999 e o jeito era brincar no pátio com a vizinhança.

O apartamento situado na avenida Engenheiro Ary de Abreu Lima, número 30, apartamento 401 (sei décor até hoje!) era a nossa casa na época. Tinha três dormitórios, dependência de empregada e sacada ampla. Ficava na esquina com a avenida do Forte. Não dava para assistir Caverna do Dragão com a janela aberta, nem se colocasse no último volume da tv. O barulho dos ônibus, carros, motos e sirenes era constante.

Os vizinhos do momento eram o Fábian e a Melanie, do 404, e a Thaís, do 501. Naquela tarde a brincadeira escolhida era amarelinha. Sendo eu a integrante mais experiente da trupe, marquei os quadrados com giz no chão. As meninas escolheram as pedrinhas para o jogo e o Fábian só queria saber de fazer guerra com cinamomos.

Visto que o sexo feminino estava em maioria, o menino foi ignorado. Seguimos com o jogo, e eu já estava na quarta casa. O Fábian subiu para seu apartamento, mas logo desceu novamente. Estava ele parado no hall de entrada do edifício Dona Fernanda (sim, o prédio tinha meu nome!) com dois baldes da água. “Pra quê isso, Fábian?”, perguntou indignada a irmã da peste, Melanie.

Foi então que a aguaceira sucedeu-se. Um corre de lá e pra cá, pois ninguém queria se molhar. O bandido nos acertou com água, mas nem nos importamos. Estava muito quente para brigas. Aliás, o seu objetivo central era destruir meus riscos com giz no chão. E ele obteve sucesso.

Oito litros de água desperdiçados depois, o Fábian voltou para casa. A Melanie correu atrás dizendo que ia contar tudo para a mãe dela. A Thaís foi trocar de roupa. Ficamos eu e minha irmã sentadas na escada esperando os amiguinhos voltarem. Foi nessa hora que chegou o cara do 403, o antigo apartamento da Fernanda Ferrari, chegou.

- E quem fez essa molhação aqui?

- Foi o Fábian, tio.

- Que feio duas meninas tão bonitas mentindo desse jeito!

E lançou um olhar de reprovação enquanto subia as escadas. Dessa vez, a culpa da bagunça não era minha, nem da minha irmã. Até hoje o tio deve pensar que sou uma malqueira que costuma encharcar saguões de prédios. Ou, então, provavelmente, ele nem lembre mais que existo.