Eu sabia que se tratava de uma das últimas vezes que os veria. Talvez fosse a proximidade do término das aulas, que impediria os encontros diários, ou o dia dos namorados, que deixara o clima mais pesado naquela manhã de quinta-feira. Como de costume, a turma composta por sete se reuniu na hora do intervalo no pátio da faculdade. Enquanto Ari e Hermes contavam dos presentes que dariam a Carol e Cris, os descomprometidos Edisson e os Pedros combinavam a dita noite dos solteiros. Mas eu sabia que todos queriam mesmo era ter alguém especial para desejar feliz dia dos namorados.
Na saída, seis ficaram conversando mais um pouco sobre as fantasias que usariam na festa de arrecadação para a formatura de Publicidade, que aconteceria no sábado. Só Edisson foi embora mais cedo. Era seu primeiro dia dos namorados sozinho, depois de quatro anos. Dei carona para Hermes e, no caminho, falei que não era para eles brigarem comigo, porque eu estava com a impressão que começaria a me afastar, já que abomino despedidas. Farejava algo errado no ar.
No almoço, minha irmã comentou o sonho que teve. Dizem que dente é presságio de morte. A minha temática noturna de quarta para quinta foi a mesma. Uma boca com dentes tortos, disformes e frouxos. Eu os balançava de leve, mas não queria que caíssem. Os meus permaneceram, mas Diandra disse que acordou banguela.
No começo da noite, voltei à faculdade e encontrei Edisson novamente. Andamos com as mesmas pessoas há quatros anos, mas começamos a conversar somente em 2008. Ele é um cara tímido, que passa a impressão de arrogante. Loiro, de olhos verdes e topete sempre bem penteado, é conhecido como o Alemão. Tem rosto redondo e uma ruga profunda que corta a testa de uma ponta a outra. Aos 22 anos, com cerca de 1m75cm e 70 kg, faz sucesso entre o público feminino, mas expressa pouca confiança quando sóbrio. O sorriso está sempre pintado na cara e a barba quase nunca cresce. O celular tira fotos e faz vídeos, mas nunca tem crédito para completar uma ligação.
Logo que saí do bar da faculdade, vi ele procurando por um rosto conhecido. Como de hábito, sentou com a agenda em baixo do braço e ficou mexendo no celular. Me aproximei e notei a cara de desânimo daquele que acabara de ter um dos piores dias de sua vida. Me contou sobre as cervejas que tomara para não pensar na ex-namorada e da festa que faria mais tarde, em comemoração à solteirice. Antes da aula, foi comigo comprar o ingresso para sábado. Não levei fé que ele iria, pensei que não se tratava do tipo de festa que gostava de freqüentar. Em dúvida quanto à fantasia, disse que não conseguia se imaginar naquela festa. Às 19h40 nos despedimos e foi a última vez que o vi antes do incidente.
Edisson namorou por três anos e meio a vizinha Marina. O relacionamento acabara há alguns meses, mas ele ainda nutria carinho pela ex. Ela o substitui por outro, logo após o rompimento. Desde então, ele passou a freqüentar assiduamente a noite da cidade. A fama de galanteador é confirmada pelos companheiros de balada, muito embora ele insista em afirmar que quer ser parte de um casal novamente.
Estava chateado desde o início da semana. Na segunda, 9, falou com a ex por telefone e chorou escondido no carro. Na terça e na quarta, sofreu por antecipação o dia dos namorados. Na quinta, 12, encontrou com o ex-sogro e falou duas vezes com Marina. Ela ouvira de casa o cantar dos pneus do carro dele e telefonou xingando: “Quer te matar?”. Desde o começo de 2008, a ex avisava para ele tomar cuidado quando dirigia.
Eu acordei com uma sensação estranha no sábado. Talvez fosse porque ainda não tinha fantasia para a noite ou por causa da chuva e do frio, que castigavam a cidade desde o início do mês. Acertei de ir à festa com uma colega e iria encontrar com a turminha lá. Quando a busquei, achei que deveria ligar para Pedro – um dos sete – para saber que horas chegaria. Em casa, disse a ela que esperasse um pouco, pois faria uma ligação. Ela questionou o porquê e eu disse apenas que precisava falar com ele antes da festa.
Sábado, 14, perto das 21h:
- “Alô, o Pedro está?”
- “Não, ele não está.”
- “E ele volta mais tarde?”
- “Na verdade, não.”
- “Então ele já saiu para a festa ou está na casa do Edisson?”
- “Aconteceu um incidente ontem à noite. Ele e o Edinho estavam voltando duma festa e bateram com o carro.”
Permaneci em silêncio por alguns longos segundos antes de perguntar ao pai de Pedro se estava tudo bem. Descobri que o acidente ocorreu na madrugada de sábado, depois da noite de sexta-feira, 13. Haviam ido com mais dois colegas para a Cidade Baixa, bairro porto-alegrense conhecido por abrigar diversas opções de entretenimento noturno. Na volta, pararam para comer no Mc Donalds e deixaram os caronas do banco de trás em casa. Seguiram pela Avenida Salvador França em direção à Zona Sul da cidade. Após uma curva feita em alta velocidade e de uma ultrapassagem que assustou o motorista, a direção hidráulica do Clio gris-cendré fez com que Edisson perdesse o controle do veículo.
O Clio era seu segundo carro, ganhara o primeiro com 18 anos. Único filho de coronel aposentado da Brigada Militar, morava em apartamento na Zona Sul da cidade. Fazia estágio à tarde e pretendia se formar publicitário no final de 2008. Há alguns meses, Edisson pensava constantemente em acidentes de carro. Desenvolvia com os colegas de curso um projeto sobre trânsito seguro e ficava imaginando como seria se alguém da turma morresse. Antes de dormir, concebia sua imagem em uma cama de hospital, respirando com o auxílio de tubos.
Ele sentia que tudo andava perfeito demais. Trocara de celular e comprara o carro novo há pouco tempo. Apesar do clima pesado pelo qual passou no dia dos namorados, seu problema mais grave naquela semana era decidir a fantasia para a festa de sábado. A vida estava redonda e a sensação era que algo ruim aconteceria em breve.
Edisson tinha certeza que não iria morrer. Não neste acidente. Quando perdeu o controle do carro, só torceu para que este batesse logo e parasse. Poucos minutos após o encontro com o poste, Edisson e Pedro foram colocados em ambulâncias separadas e seguiram para hospitais distintos. O amigo permaneceu duas noites internado. Ele ficou quase uma semana, fez cirurgia no braço e teve tempo para conhecer outros pacientes. Experimentou o abandono em uma emergência e realizou dezenas de exames sem saber se seus pais estavam cientes de onde ele estava. Se preocupou com o amigo, que não teve mais notícias após abandonar o carro, e temeu possíveis seqüelas físicas.
Depois que o pai de Pedro me explicou no telefone o que se sucedera na madrugada de sábado, liguei para ele no hospital. A fala baixa e a voz afetada pela rouquidão me assustaram, mas a visita na tarde de domingo me fez crer que a recuperação era iminente. O caso de Edisson foi um pouco mais grave, mas não incluiu tubos respiratórios no prontuário.
O sempre bem vestido e perfumado habitou por seis dias um leito de hospital público, trajando abrigo azul marinho manchado de água sanitária e envolto em cobertores emprestados da enfermaria. O lanche da tarde incluía café com leite e maçã, que nunca marcaram presença em seu cardápio caseiro. Um dos colegas de quarto foi baleado por traficantes na canela e o outro aguardava pela cirurgia há seis meses. A mãe se manteve sempre presente, mimando o filhote ferido. Ao todo, 12 amigos o visitaram durante as férias forçadas.
Duas semanas após, a vida segue. Só as marcas do cinto de segurança e as dores no peito permanecem. O braço com gesso branco não receberá assinaturas, pois as riscarias não combinam com seu estilo. Nos próximos três meses, Edisson não poderá dirigir, mas não demonstra se importar. Repete que, assim como eu, sempre quando mentaliza uma coisa, ela acontece. Acredito que ele não irá se formar no final de 2008, mas creio que voltará a levar os amigos para a noite antes do prescrito pelos médicos.
O espetáculo da abertura dos jogos olímpicos de Beijing se repetiu no encerramento. Os milhares de chineses que cantaram, pularam, choraram e participaram da festa final refletem a China que todos conheceram nos 16 dias de evento. Uma China de chinesas bonitonas, elegantes e branquíssimas. Uma China feliz com seu regime político e atuante na economia mundial. Uma China histórica, cultural, vermelha e, ao mesmo tempo, tecnológica. Uma China invejável que invadiu os lares brasileiros pela tela das televisões. Com certeza, essa foi a maior Olimpíada de todos os tempos.
Trabalhei com chineses durante um ano e aprendi muitas coisas sobre o país. Uma delas foi que haveria cinco mascotes nesta Olimpíada (e eu os ganhei de presente). Percebi que chinês gosta de fazer trocas culturais (através de presentes, bilhetes e da inteligência com a qual absorvem qualquer conhecimento em pouco tempo). Os olhinhos puxados gostam de cantar (destaque para a harmonia do idioma que propicia belas canções), mas não se arriscam na pista de dança.
A sensação de timidez passada através da fala baixa e rápida, do olhar permissivo e da dificuldade de saber onde colocar as maõs, transmite também o sentimento de respeito com o outro. A China é individualista. Cada um com seu celular, seu laptop e seu corte de cabelo. Arrotar não é falta de educação, mesmo que na compania de outras pessoas. As chinesas lêem revistas de moda, querem corpo de modelo e gostariam de ter olhos ocidentais para pode passar sombra.
Chinês demora para tomar confiança, mas, quando confiam, é amizade para uma vida inteira. Jamais esquecem o que você fez por eles e esperam poder retribuir algum dia. Sexo não é tabu, só se trata de um assunto que não se discute com qualquer pessoa. Apesar das meninas serem super protegidas pelas famílias, elas podem namorar desde cedo. O que não pode acontecer precocemente é a gravidez. Quando ocorre, a menina é expulsa da escola ou faculdade. Além disso, os chineses querem que as filhas casem com os conterrâneos, são contra estrangeiros e mistura de raça.
Cada mulher pode ter apenas um filho, mas isso é discutível. Existem famílias que possuem dois e pagam um imposto ao governo até que o caçula complete 18 anos. Na China tem mais homem do que mulher, dizem que é impossível ver o sol na capital (por causa da poluíção) e que os restaurantes são imundos. É impossível conhecer um país sem colocar os pés em seu território. Aliás, às vezes não é possível conhecê-lo bem mesmo tendo nascido nele.
Menos de uma hora após o apagar da chama olímpica, a China deixa saudades. Voamos 11 horas todos os dias para acompanhar jogos, saltos, corridas e espetáculos. O país do “ni hao ma” escreve mais um capítulo de sua História milenar. Eu já sabia, mas decorei: Beijing, Beijing, wo ai Beijing.
