Tudo o que eu tô afim de falá e ninguém tá afim de ouví


Escrita Criativa em dia de chuva
29 29UTC Maio 29UTC 2008, 8:32 PM
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Na última aula de Escrita Criativa, o professor Charles Kiefer substituiu Assis Brasil. Mal os colegas ficaram sabendo de quem ministraria a aula, começaram os comentários. “Se o Assis é mansinho, Charles critica tudo”; “O Assis nem se importa que conversem em aula, mas o Charles pára de falar”.

Realmente, Charles Kiefer esboça mais ditatoriedade e é mais enérgico. Trouxe um conto do escritor que, segundo ele, ficaria em quarto lugar no “Top 10 melhores escritores brasileiros de todos os tempos”. Recomendou ainda o “melhor livro da literatura brasileira”, cujo o autor nenhum aluno presente conhecia.

Depois da leitura do conto e do debate em close read, Charles comentou: “Quanto mais diferente um casal é, menor é a duração do relacionamento”. Obviamente, o recado estava inserido no contexto da aula, algo que não pretendo reproduzir em meu breve comentário. Prosseguiu: “Tive uma dúzia de mulheres, fui casado vários vezes, tenho inclusive duas filhas com mulheres diferentes”. Nostalgicamente, remeteu a uma namorada que teve: “Era uma maravilha na cama, mas uma transa era equivalente a 28 dias aterrorizantes… a mulher enloquecia”, comentou com a turma.

O conto inspirou ainda comentários dos colegas. “Nenhum homem fica assistindo o jogo do Inter se a mulher se despe na frente da tv”; “O casal pode ter até brigado, mas basta a mulher tirar a blusa que fica tudo bem”; “No mínimo ela estava sempre se fazendo pra dar pro cara, até que ele cansou e rejeitou quando ela quis”.

Hilário. Uma das poucas boas aulas que tive em dias chuvosos.



Quase que não foi real
24 24UTC Maio 24UTC 2008, 9:30 PM
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Hoje acordei com medo de zumbis. Não dos que andam cambaleando, como se sofressem de deficiência respiratória, e que mantém os braços esticados. Temia os que correm maratonas e conservam dentes afiados.

Estava na garagem de casa, conversando com minha irmã e embrulhando alguns livros para não molharem. O outro sobrevivente que dividia a casa conosco apareceu e perguntou se era muito tarde para tomar banho. O relógio marcava cinco horas e eu disse que, se ele nos ajudasse a levar as cadeiras até o quarto, não teria problema.

Ao todo foram seis. Meia dúzia de cadeiras de metal claro com os estofados brancos. Eram leves e, com o trabalho em equipe, não tivemos dificuldades para subi-las. Fechei a porta e disse: “Tá, vai rápido pra esse banho que eu só vou tomar o meu amanhã”.

O sol se pôs e barulhos estranhos rondavam a casa. Minha irmã sentara-se na cama e observava perplexa os movimentos. “Desiste do banho e leva nossas coisas para a outra peça porque a porta não vai agüentar”. Eu estava com medo que a cabeça de um daqueles bichos nojentos passasse pelo vão da porta e ele me mordesse sem dó.

Meus dois companheiros jogavam nossos pertences para dentro da peça menor e eu me esforçava para segurar os demônios do lado de fora. “No três você larga e vem correndo pra cá”. Em menos de dois minutos levaram tudo o que era importante para o quartinho 3mx2m que antes deveria ser o closet do quarto de casal. Soltei a porta de entrada e corri. Não deu tempo de chegar até a outra.

Estava tão assustada que, quando acordei, demorei uns três ou quarto segundos para lembrar onde estava. Paredes laranja, mapa do Brasil e porta-retratos com rostos familiares. Levantei e vi que o celular acusava oito e cinqüenta e oito da manhã.



O dia em que Manu Menezes não apareceu
6 06UTC Maio 06UTC 2008, 4:28 PM
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Na terça-feira, 22 de abril de 2008, marquei um encontro com a Manu Menezes, a Laura do Vidanormal, na Lancheria do Parque. Eu precisava fazer um perfil da jovem atriz para a disciplina de Jornalismo e Literatura. Entrevista marcada para às 11h, fui me aventurar no mundo dos perfis jornalísticos. O resultado da experiência, que não deu certo de primeira, mas consumou-se na segunda, deve ficar pronto na quinta-feira, dia oito de maio. Os problemas da primeira vez seguem narrados abaixo.

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Como uma pessoa consegue comer feijão com arroz às 10h30 da manhã? Estacionei o carro em uma das ruas perpendiculares à Redenção. Não tinha moedas suficientes para o parquímetro. Por sorte, o Bonfim é um daqueles bairros onde há ferrangens, mercadinhos e restaurantes a poucos passos. Troquei nota por moeda e retornei com o bilhete do estacionamento ao carro. Segui para o local do encontro.

10h45: “Me vê uma água sem gás?”. O atendente quis colocá-la em uma sacola de plástico, mas eu queria era arranjar uma desculpa para ocupar uma das mesas da Lancheria do Parque. “Tem canudo?”, perguntei. Ele apontou para o lado e depois disse “tchau”. Virei de costas para a porta e sentei em uma mesa que fica bem no meio do restaurante. Não estava lotado, mas havia seis pessoas servindo feijão-arroz-carne no buffet e mais alguns conversando sentados.

11h18: “Mais dois minutos e vou ligar perguntando se aconteceu alguma coisa”. Depois de chamar duas vezes, sou encaminhada para a caixa de mensagens. Acho que ela deve estar chegando.

11h20: Zé Vitor Castiel entra. “E aí Zé”, grita um dos garçons. O ator está com o braço esquerdo engessado, senta no balcão e pede uma coca light. Logo aparece um homem para cumprimentá-lo. Parece que se conhecem, pois conversam gesticulando em sintonia.

11h23: Telefono novamente. Outra vez sou encaminhada para a caixa de mensagens. Com algumas anotações do que seria o questionário inicial da entrevista, aguardo sem esperança. Decido que ficarei até às 11h30.

“Dá licença?”, diz um dos garçons. Olho para o lado e o homem empurra uma lata de lixo gigante, de cor azul. Afasto os pés e ele passa pelo estreito corredor que separa as mesas, seguido por mais três homens que carregam sacos pretos. Zé Vitor Castiel termina de comer o pastel e levanta. Coloca óculos escuros e acerta a conta no caixa.

11h27 e nada da Manu. Depois de 300ml de água, sinto vontade de ir ao banheiro. É melhor segurar até chegar em casa. Os barulhos de pratos, liquidificadores e talheres se intensificam. Observo atentamente todos que passam pela rua. Alguns entram e espiam cardápio do dia. Outros param em frente ao painel fixado na parede, que exibe os preços, e dão meia volta. Há os que escolhem uma mesa e fazem pedidos com o garçom. Ainda presencio os tipos que entram cumprimentando a todos sem critério.

11h31. Ela não vem. Preciso me convencer que a simpatia da Manu Menezes é aparência. Conversamos no MSN, marcamos o encontro, falamos por telefone, mas me deixou 31 minutos esperando. Deve ter acontecido alguma coisa.

O movimento da Lancheria aumenta, por causa da proximidade com a hora do almoço. Entendo que é preciso desocupar a mesa. No caminho para o carro, olho para os que passam na calçada, torcendo para que ela não apareça justo agora que estou voltando para almoçar em casa. O bilhete da área azul me garantia estacionamento até às 12h34. Não será mais necessário.



Verdades Contestáveis
5 05UTC Maio 05UTC 2008, 3:17 PM
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Mário Quintana gostava de ter pesadelos. Segundo Luiz Antonio de Assis Brasil, escritor e professor, o poeta gaúcho costumava comer seis salsichões com café preto. “É bom para ter pesadelos”, dizia.

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Juremir Machado da Silva foi reprovado em teste psicotécnico. Um dos pré requisitos para conseguir otrabalho de balconista de farmácia era a tal prova. O escritor e professor não obteve sucesso.

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Ao dirigir a minissérie O Tempo e o Vento, o também ator Paulo José iria gravar uma cena com seis gaúchos em roda tomando chimarrão. A produção prontamente arranjou seis cuias e seis bombas.

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Luiz Antonio de Assis Brasil vendeu o direito de reprodução de um dos seus livros à Rede Globo. Por uma gorda quantia, assinou o contrato. O prazo expirou e o roteiro não chegou a ser adaptado.