Na última aula de Escrita Criativa, o professor Charles Kiefer substituiu Assis Brasil. Mal os colegas ficaram sabendo de quem ministraria a aula, começaram os comentários. “Se o Assis é mansinho, Charles critica tudo”; “O Assis nem se importa que conversem em aula, mas o Charles pára de falar”.
Realmente, Charles Kiefer esboça mais ditatoriedade e é mais enérgico. Trouxe um conto do escritor que, segundo ele, ficaria em quarto lugar no “Top 10 melhores escritores brasileiros de todos os tempos”. Recomendou ainda o “melhor livro da literatura brasileira”, cujo o autor nenhum aluno presente conhecia.
Depois da leitura do conto e do debate em close read, Charles comentou: “Quanto mais diferente um casal é, menor é a duração do relacionamento”. Obviamente, o recado estava inserido no contexto da aula, algo que não pretendo reproduzir em meu breve comentário. Prosseguiu: “Tive uma dúzia de mulheres, fui casado vários vezes, tenho inclusive duas filhas com mulheres diferentes”. Nostalgicamente, remeteu a uma namorada que teve: “Era uma maravilha na cama, mas uma transa era equivalente a 28 dias aterrorizantes… a mulher enloquecia”, comentou com a turma.
O conto inspirou ainda comentários dos colegas. “Nenhum homem fica assistindo o jogo do Inter se a mulher se despe na frente da tv”; “O casal pode ter até brigado, mas basta a mulher tirar a blusa que fica tudo bem”; “No mínimo ela estava sempre se fazendo pra dar pro cara, até que ele cansou e rejeitou quando ela quis”.
Hilário. Uma das poucas boas aulas que tive em dias chuvosos.
Hoje acordei com medo de zumbis. Não dos que andam cambaleando, como se sofressem de deficiência respiratória, e que mantém os braços esticados. Temia os que correm maratonas e conservam dentes afiados.
Estava na garagem de casa, conversando com minha irmã e embrulhando alguns livros para não molharem. O outro sobrevivente que dividia a casa conosco apareceu e perguntou se era muito tarde para tomar banho. O relógio marcava cinco horas e eu disse que, se ele nos ajudasse a levar as cadeiras até o quarto, não teria problema.
Ao todo foram seis. Meia dúzia de cadeiras de metal claro com os estofados brancos. Eram leves e, com o trabalho em equipe, não tivemos dificuldades para subi-las. Fechei a porta e disse: “Tá, vai rápido pra esse banho que eu só vou tomar o meu amanhã”.
O sol se pôs e barulhos estranhos rondavam a casa. Minha irmã sentara-se na cama e observava perplexa os movimentos. “Desiste do banho e leva nossas coisas para a outra peça porque a porta não vai agüentar”. Eu estava com medo que a cabeça de um daqueles bichos nojentos passasse pelo vão da porta e ele me mordesse sem dó.
Meus dois companheiros jogavam nossos pertences para dentro da peça menor e eu me esforçava para segurar os demônios do lado de fora. “No três você larga e vem correndo pra cá”. Em menos de dois minutos levaram tudo o que era importante para o quartinho 3mx2m que antes deveria ser o closet do quarto de casal. Soltei a porta de entrada e corri. Não deu tempo de chegar até a outra.
Estava tão assustada que, quando acordei, demorei uns três ou quarto segundos para lembrar onde estava. Paredes laranja, mapa do Brasil e porta-retratos com rostos familiares. Levantei e vi que o celular acusava oito e cinqüenta e oito da manhã.
Na terça-feira, 22 de abril de 2008, marquei um encontro com a Manu Menezes, a Laura do Vidanormal, na Lancheria do Parque. Eu precisava fazer um perfil da jovem atriz para a disciplina de Jornalismo e Literatura. Entrevista marcada para às 11h, fui me aventurar no mundo dos perfis jornalísticos. O resultado da experiência, que não deu certo de primeira, mas consumou-se na segunda, deve ficar pronto na quinta-feira, dia oito de maio. Os problemas da primeira vez seguem narrados abaixo.
>
Como uma pessoa consegue comer feijão com arroz às 10h30 da manhã? Estacionei o carro em uma das ruas perpendiculares à Redenção. Não tinha moedas suficientes para o parquímetro. Por sorte, o Bonfim é um daqueles bairros onde há ferrangens, mercadinhos e restaurantes a poucos passos. Troquei nota por moeda e retornei com o bilhete do estacionamento ao carro. Segui para o local do encontro.
10h45: “Me vê uma água sem gás?”. O atendente quis colocá-la em uma sacola de plástico, mas eu queria era arranjar uma desculpa para ocupar uma das mesas da Lancheria do Parque. “Tem canudo?”, perguntei. Ele apontou para o lado e depois disse “tchau”. Virei de costas para a porta e sentei em uma mesa que fica bem no meio do restaurante. Não estava lotado, mas havia seis pessoas servindo feijão-arroz-carne no buffet e mais alguns conversando sentados.
11h18: “Mais dois minutos e vou ligar perguntando se aconteceu alguma coisa”. Depois de chamar duas vezes, sou encaminhada para a caixa de mensagens. Acho que ela deve estar chegando.
11h20: Zé Vitor Castiel entra. “E aí Zé”, grita um dos garçons. O ator está com o braço esquerdo engessado, senta no balcão e pede uma coca light. Logo aparece um homem para cumprimentá-lo. Parece que se conhecem, pois conversam gesticulando em sintonia.
11h23: Telefono novamente. Outra vez sou encaminhada para a caixa de mensagens. Com algumas anotações do que seria o questionário inicial da entrevista, aguardo sem esperança. Decido que ficarei até às 11h30.
“Dá licença?”, diz um dos garçons. Olho para o lado e o homem empurra uma lata de lixo gigante, de cor azul. Afasto os pés e ele passa pelo estreito corredor que separa as mesas, seguido por mais três homens que carregam sacos pretos. Zé Vitor Castiel termina de comer o pastel e levanta. Coloca óculos escuros e acerta a conta no caixa.
11h27 e nada da Manu. Depois de 300ml de água, sinto vontade de ir ao banheiro. É melhor segurar até chegar em casa. Os barulhos de pratos, liquidificadores e talheres se intensificam. Observo atentamente todos que passam pela rua. Alguns entram e espiam cardápio do dia. Outros param em frente ao painel fixado na parede, que exibe os preços, e dão meia volta. Há os que escolhem uma mesa e fazem pedidos com o garçom. Ainda presencio os tipos que entram cumprimentando a todos sem critério.
11h31. Ela não vem. Preciso me convencer que a simpatia da Manu Menezes é aparência. Conversamos no MSN, marcamos o encontro, falamos por telefone, mas me deixou 31 minutos esperando. Deve ter acontecido alguma coisa.
O movimento da Lancheria aumenta, por causa da proximidade com a hora do almoço. Entendo que é preciso desocupar a mesa. No caminho para o carro, olho para os que passam na calçada, torcendo para que ela não apareça justo agora que estou voltando para almoçar em casa. O bilhete da área azul me garantia estacionamento até às 12h34. Não será mais necessário.
Mário Quintana gostava de ter pesadelos. Segundo Luiz Antonio de Assis Brasil, escritor e professor, o poeta gaúcho costumava comer seis salsichões com café preto. “É bom para ter pesadelos”, dizia.
>
Juremir Machado da Silva foi reprovado em teste psicotécnico. Um dos pré requisitos para conseguir otrabalho de balconista de farmácia era a tal prova. O escritor e professor não obteve sucesso.
>
Ao dirigir a minissérie O Tempo e o Vento, o também ator Paulo José iria gravar uma cena com seis gaúchos em roda tomando chimarrão. A produção prontamente arranjou seis cuias e seis bombas.
>
Luiz Antonio de Assis Brasil vendeu o direito de reprodução de um dos seus livros à Rede Globo. Por uma gorda quantia, assinou o contrato. O prazo expirou e o roteiro não chegou a ser adaptado.
