“E quando a gente pode fazer a entrevista?”
“Que dia que tu pode?”
“Não, eu estou perguntando o dia que fica melhor pra ti.”
E foi marcada para depois da aula de Geologia Física, numa segunda-feira à tardinha – e não por ele. Mesmo com a tempestade que caía, não é do tipo que nega compromisso para chegar mais cedo em casa ou ir se encontrar com a namorada. Corre o risco de ficar ensopado na volta, mas não deixa ninguém na mão.
Com a sala de aula vazia, larga a mochila cuidadosamente em uma das carteiras e senta em outra. Avisa que a voz fica terrível no gravador: “Eu falo rápido e enrolado”. Veste o capuz do moletom vermelho, talvez para se proteger de supostas perguntas capciosas: “Tô com medo do que tu vai me perguntar”.
Tiago* não gosta do último sobrenome. Prefere que os professores não o citem na hora da chamada. Os amigos de infância o chamam de Monga, por causa das brincadeiras idiotas que costumava fazer. Os colegas da faculdade de Geografia o conhecem como Tiaconha.
Com 22 anos, acumula “mais de 22 mil” manias: “Eu acho que tenho TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo”. A mais antiga delas seria roer as cutículas, e os dedos comidos a comprovam. Não adiciona paranóias, vai as substituindo com o tempo: “Eu tenho uma mania de tirar uma mania e colocar outra”.
O jeito preocupado e atencioso rende elogios de meninas e meninos. Tielle Duas, companheira de classe, afirma que se surpreendeu: “Pensei que ele fosse alienado, mas quando começou a opinar na aula, vi que tem conteúdo”. O colega Evandro Previdi diz que Tiago não é espiado: “Se tu precisa de uma coisa e ele tiver, ele te dá”.
A postura de tratar todos bem é o que conquista quem se aproxima. “A questão não é ser simpático, é ter respeito”, afirma. Cumprimenta todos os vizinhos, até mesmo os “com cara de bunda que nunca dão oi”.
Elogios à parte, o que chama mais atenção e gera apelidos é o contato com a maconha. “Ele fuma pra caralho”, entrega Vagner Soares, amigo há 15 anos. O vício começou quando tinha 17 anos, e Tiago acha que faz bem: “Fico com a percepção mais aguçada e me organizo melhor”, argumenta.
* Os sobrenomes foram ocultados para preservar a identidade do perfilado.
O trabalho de Nick Naylor é convencer as pessoas de que fumar é um dos maiores prazeres da vida. A cara de bom moço do ator Aaron Eckhart destoa da carapuça de vilão do protagonista de Obrigado por fumar, o que favorece ao personagem, um lobista. O filme de 2005 foca na história de Naylor para detalhar uma atividade pouco discutida, mas que é uma das maiores responsáveis pelas movimentações financeiras mundiais: o lobby.
O cigarro mata cerca de 1200 pessoas por dia. São dois aviões boing lotados de homens, mulheres e crianças que morrem ativa ou passivamente graças às substâncias químicas presentes no produto. Quem paga o salário de Naylor é o conglomerado das indústrias de tabaco norte-americanas, que querem ver cada vez mais pessoas fumando mais.
“Se quiser um trabalho fácil, vá trabalhar para a Cruz Vermelha”. Com essa frase o lobista define sua profissão: ser o vilão da história não é fácil. Praticar o bem e ajudar pessoas com AIDS é simples. Complicado mesmo é persuadir os cidadãos que mesmo sendo o câncer de pulmão uma das enfermidades que mais mata no mundo, fumar é um bom negócio.
Para tanto, Naylor utiliza armas que vão desde pesquisas científicas compradas, até a boa e velha lorota e embromação. O segredo não é falar a coisa certa ou ter sempre razão nos debates. O fundamental é argumentar. Nem que para isso tenha-se que discretamente mudar de assunto ou apresentar dados que não se relacionam com o tópico abordado.
Resumidamente, Obrigado por fumar prova que todos têm um talento. Talvez o meu não seja escrever resenhas de filmes, nem o de Aaron Eckhart atuar como vilão da trama, porém, me filiar à Cruz Vermelha com certeza não está nos planos.
Juliano VP, traficante, nascido e criado na Santa Marta agora comanda o narcotráfico no morro. Mas nem sempre foi assim. VP descende de uma família de nordestinos, que chegaram ao Rio de Janeiro na década de 70 e se instalaram na favela por falta de recursos. A maioria das famílias que moram ali é oriunda de outras regiões pobres da cidade e do país.
Em seu livro Abusado – O dono do Morro Santa Marta, Caco Barcellos narra a trajetória do menino que começou como “avião”, passando por traficante e “mula”, até chegar ao posto mais alto na favela: o controle das bocas de fumo. Em uma longa reportagem, o repórter é capaz de detalhar a vida do personagem, obter relatos, transcrever diálogos e contar passo-a-passo como e por que o protagonista de uma história também pode ser o vilão.
Se tratando de jornalismo, o livro não deixa a desejar em momento algum. É completamente circunstancial e factual, expõe a cada página os episódios da vida do criminoso e nunca tende pela opinião. A história não é apresentada na ordem cronológica correta, uma vez que a tendência do autor é explorar flashbacks. Já no primeiro capítulo ocorre essa disposição, já que certas ocorrências são retomadas no capítulo posterior para as devidas explicações.
É interessante notar em capítulos como “Bonde sinistro” e a “Guerra”, nos quais as batalhas pelo controle da região são descritas, a intensa participação da mídia brasileira e mundial na cobertura do acontecimento. Um repórter radiofônico consegue entrar no morro durante uma pausa no tiroteio e entrevista o então líder da gangue, Cabeludo.
O livro é dividido em duas partes, tempo de viver e tempo de morrer, sendo a primeira os momentos de ascensão na carreira do bandido e a segunda a decadência de sua presença no crime. Outro dado interessante é notar a partir das datas como funcionou a formação de uma das maiores quadrilhas que atua até hoje no Brasil: o Comando Vermelho
Uma coisa é certa: Abusado traduz no que a marginalização infantil pode se transformar com o tempo. Juliano VP – importante frisar que ao ler a obra se entende o porquê das duas letras incorporadas ao nome – é muito mais que um delinqüente provocador, ele teve a esperteza, ganância e atrevimento de disputar com os chefões do tráfico o comando do seu lar. Conhecendo a vida fácil e emocionante do crime organizado, se encurta o caminho para entrar na violência e nas drogas. Com certeza, nem todos favelados são criminosos, mas todos os criminosos são favelados.
* Texto achado na limpeza dos armários. Provavelmente escrito no quarto ou quinto semestre.
