Arquivado em: Nao era pra contar
- Que feio duas meninas tão bonitas mentindo desse jeito!
Eu já não gostava muito do cara do 403 e ele ainda me larga uma destas. Eu devia ter uns 12. A Diandra, minha irmã, 9. Era uma tarde de verão nas férias de verão. Estava superquente e nada de praia naquele começo de dezembro. O pai estava cheio de trabalho, e a casa em Nova Tramandaí teria que nos esperar até o natal.
Provavelmente este tenha sido o ano no qual ganhamos o Suky de presente. Um cachorrinho novinho em folha (com fita e tudo!) no dia 23. Honestamente, meu sonho de consumo na década passada. Apesar disso, o calendário contava apenas 10 dias no décimo segundo mês de 1999 e o jeito era brincar no pátio com a vizinhança.
O apartamento situado na avenida Engenheiro Ary de Abreu Lima, número 30, apartamento 401 (sei décor até hoje!) era a nossa casa na época. Tinha três dormitórios, dependência de empregada e sacada ampla. Ficava na esquina com a avenida do Forte. Não dava para assistir Caverna do Dragão com a janela aberta, nem se colocasse no último volume da tv. O barulho dos ônibus, carros, motos e sirenes era constante.
Os vizinhos do momento eram o Fábian e a Melanie, do 404, e a Thaís, do 501. Naquela tarde a brincadeira escolhida era amarelinha. Sendo eu a integrante mais experiente da trupe, marquei os quadrados com giz no chão. As meninas escolheram as pedrinhas para o jogo e o Fábian só queria saber de fazer guerra com cinamomos.
Visto que o sexo feminino estava em maioria, o menino foi ignorado. Seguimos com o jogo, e eu já estava na quarta casa. O Fábian subiu para seu apartamento, mas logo desceu novamente. Estava ele parado no hall de entrada do edifício Dona Fernanda (sim, o prédio tinha meu nome!) com dois baldes da água. “Pra quê isso, Fábian?”, perguntou indignada a irmã da peste, Melanie.
Foi então que a aguaceira sucedeu-se. Um corre de lá e pra cá, pois ninguém queria se molhar. O bandido nos acertou com água, mas nem nos importamos. Estava muito quente para brigas. Aliás, o seu objetivo central era destruir meus riscos com giz no chão. E ele obteve sucesso.
Oito litros de água desperdiçados depois, o Fábian voltou para casa. A Melanie correu atrás dizendo que ia contar tudo para a mãe dela. A Thaís foi trocar de roupa. Ficamos eu e minha irmã sentadas na escada esperando os amiguinhos voltarem. Foi nessa hora que chegou o cara do 403, o antigo apartamento da Fernanda Ferrari, chegou.
- E quem fez essa molhação aqui?
- Foi o Fábian, tio.
- Que feio duas meninas tão bonitas mentindo desse jeito!
E lançou um olhar de reprovação enquanto subia as escadas. Dessa vez, a culpa da bagunça não era minha, nem da minha irmã. Até hoje o tio deve pensar que sou uma malqueira que costuma encharcar saguões de prédios. Ou, então, provavelmente, ele nem lembre mais que existo.
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