Tudo o que eu tô afim de falá e ninguém tá afim de ouví


Dona Fernanda I
18 18UTC Janeiro 18UTC 2008, 3:20 PM
Arquivado em: Nao era pra contar

- Que feio duas meninas tão bonitas mentindo desse jeito!

Eu já não gostava muito do cara do 403 e ele ainda me larga uma destas. Eu devia ter uns 12. A Diandra, minha irmã, 9. Era uma tarde de verão nas férias de verão. Estava superquente e nada de praia naquele começo de dezembro. O pai estava cheio de trabalho, e a casa em Nova Tramandaí teria que nos esperar até o natal.

Provavelmente este tenha sido o ano no qual ganhamos o Suky de presente. Um cachorrinho novinho em folha (com fita e tudo!) no dia 23. Honestamente, meu sonho de consumo na década passada. Apesar disso, o calendário contava apenas 10 dias no décimo segundo mês de 1999 e o jeito era brincar no pátio com a vizinhança.

O apartamento situado na avenida Engenheiro Ary de Abreu Lima, número 30, apartamento 401 (sei décor até hoje!) era a nossa casa na época. Tinha três dormitórios, dependência de empregada e sacada ampla. Ficava na esquina com a avenida do Forte. Não dava para assistir Caverna do Dragão com a janela aberta, nem se colocasse no último volume da tv. O barulho dos ônibus, carros, motos e sirenes era constante.

Os vizinhos do momento eram o Fábian e a Melanie, do 404, e a Thaís, do 501. Naquela tarde a brincadeira escolhida era amarelinha. Sendo eu a integrante mais experiente da trupe, marquei os quadrados com giz no chão. As meninas escolheram as pedrinhas para o jogo e o Fábian só queria saber de fazer guerra com cinamomos.

Visto que o sexo feminino estava em maioria, o menino foi ignorado. Seguimos com o jogo, e eu já estava na quarta casa. O Fábian subiu para seu apartamento, mas logo desceu novamente. Estava ele parado no hall de entrada do edifício Dona Fernanda (sim, o prédio tinha meu nome!) com dois baldes da água. “Pra quê isso, Fábian?”, perguntou indignada a irmã da peste, Melanie.

Foi então que a aguaceira sucedeu-se. Um corre de lá e pra cá, pois ninguém queria se molhar. O bandido nos acertou com água, mas nem nos importamos. Estava muito quente para brigas. Aliás, o seu objetivo central era destruir meus riscos com giz no chão. E ele obteve sucesso.

Oito litros de água desperdiçados depois, o Fábian voltou para casa. A Melanie correu atrás dizendo que ia contar tudo para a mãe dela. A Thaís foi trocar de roupa. Ficamos eu e minha irmã sentadas na escada esperando os amiguinhos voltarem. Foi nessa hora que chegou o cara do 403, o antigo apartamento da Fernanda Ferrari, chegou.

- E quem fez essa molhação aqui?

- Foi o Fábian, tio.

- Que feio duas meninas tão bonitas mentindo desse jeito!

E lançou um olhar de reprovação enquanto subia as escadas. Dessa vez, a culpa da bagunça não era minha, nem da minha irmã. Até hoje o tio deve pensar que sou uma malqueira que costuma encharcar saguões de prédios. Ou, então, provavelmente, ele nem lembre mais que existo.


Sem comentários ainda até o momento
Deixe um comentário



Deixe um comentário
Linhas e parágrafos quebram automaticamente, endereços de email não serão mostrados, HTML permitido: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>