Tudo o que eu tô afim de falá e ninguém tá afim de ouví


A lenda é Ele
31 31UTC Janeiro 31UTC 2008, 3:41 PM
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Uma Nova York vazia, com ruas cheias de carros mal estacionados, animais selvagens e construções decadentes. As imagens chamam a atenção, mas não são o foco da história do último ser humano do planeta. Na verdade, Eu sou a Lenda é mais um daqueles filmes sobre fé. A exemplo de Sinais, com Mel Gibson, tem como questionamento central a relação entre coincidências e destino.

O drama mostra o que restou da civilização humana após a disseminação de um vírus, que a princípio foi tido como a cura do câncer: 5,5 bilhões de pessoas morreram, e o resto se transformou em zumbi ou em comida para zumbis. Este é outro ponto em comum com Sinais, que aborda a invasão de extraterrestres, que também são devoradores de humanos. Além disso, os flashbacks e as cenas com “criaturas estranhas” oriundas da computação gráfica remetem ao filme de Gibson.

Will Smith não surpreende. O papel de cientista, que também é militar, segue o comportamento de oficial “machão” demonstrado em Eu, robô, e o esforço heróico utilizado em À Procura da Felicidade. Apesar disso, o personagem de Smith não perde a cara de debochado e o sarcasmo do famoso The Fresh Prince of Bel-Air.

Alice Braga literalmente não fede, nem cheira. A interpretação dela fica restrita a zero de expressão e poucas falas. Os destaques ficam por conta da participação brilhante de Sam, a cadelinha companheira do protagonista, e a trilha sonora composta por músicas do cd Legend, de Bob Marley. “Don´t worry about a thing, cause every little thing gonna be all right” gruda na ponta da língua após o término da sessão.

O reggae surpreende embalando as cenas, já que o gênero musical normalmente não é utilizado como trilha. Além disso, a ideologia de Marley ganha peso científico no filme. A expressão “Light up the Darkness” evoca a idéia de acabar com a escuridão – os zumbis, no caso –, levando-os à luz – que seria a cura para o vírus. Essa é a missão do personagem de Smith.

A moral da história é que Deus já planejou tudo. A humanidade pode destruir a vida ou detonar o planeta que tudo está escrito e meticulosamente esquematizado. A salvação está prevista desde o início e os heróis escolhidos a dedo. O ideal seria que não se citasse isso ao falar sobre aquecimento global, desmatamento, fome e falta de saneamento básico, pois não deixa de ser papel do ser humano tentar evitar a precoce destruição da vida.

Um célebre comentário de Bob Marley, que versa sobre o fato das pessoas que estão tentando fazer o mundo pior nunca tirarem um dia de folga, torna-se a mensagem central. Se os maus não tiram férias ao proliferar a escuridão pelo mundo, por que o salvador do planeta deveria tirar? No caso do filme, o esforço de Smith compensa.

Imperdível: Will Smith imitando as falas de Shrek.



A conspiração Heath Ledger
30 30UTC Janeiro 30UTC 2008, 2:35 PM
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Desde o momento que soube da notícia da morte do ator Heath Ledger, desconfiei. Alguma coisa soou estranha. Lindo, loiro, alto, 28 anos, uma filha pequena e uma carreira promissora no cinema, não era a hora certa de dizer adeus.

À exemplo de Che Guevara e Bob Marley, que partiram cedo deste mundo, Ledger havia terminado sua atuação no novo filme do Batman poucos dias antes do ocorrido. Morreu, e não deixou pendências. (Nota mental: Morrer jovem é certeza de sucesso eterno. Quem usaria uma camiseta com a imagem de Che estampada se a última foto dele tivesse sido tirada aos 82 anos de idade?)

Fato é que Heath Ledger não morreu. Tudo se trata de um grande golpe de marketing que pretende dobrar (ou até triplicar) os números da bilheteria de Batman – O Cavaleiro das Trevas. Além disso, aqueles que não assistiram aos outros filmes irão catá-los na locadora ou comprá-los em DVD antes de conferir a seqüência.

A conspiração basicamente consiste em aumentar a audiência do filme, em vender os produtos promocionais e desbancar os longas concorrentes durante o período que estiver em cartaz. Muita gente que estava nem aí para o lançamento irá correndo ao cinema assistir o último filme de Heath Ledger. (Observação: Aliás, o trailer já demonstra que o Coringa foi brilhantemente interpretado, sendo que este será, com certeza, o papel mais importante da carreira de Ledger).

Na Internet circulam inúmeras versões do falso óbito. Uns apostam em suicídio. Outros dizem que foi um acidente. Há os que dizem que o ator era gay ou que estava em crise existencial. (Comentário maldoso: É verdade que ele namorava a retardada da Lindsey Lohan?). Até Jack Nicholson aproveitou-se da notícia para comentar que “avisou a ele” sobre os perigos de interpretar o Coringa, rival de Batman.

Enfim, insisto em afirmar que Heath Ledger retornará. Estará presente na entrega do Oscar 2009, causando o maior bafafá entre os jornalistas e o público. Muitos ficarão com raiva e o acusarão de golpista. Porém, esta será a melhor jogada publicitária dos últimos tempos. Sua eficácia será reconhecida e, quiçá, repetida.

Não acredito que alguém tenha tramado a morte do ator. Ouso dizer que ele é cúmplice de sua pseudomorte, e que, em breve, voltará.

* Abaixo segue lista de “mortes misteriosas” e, possivelmente, vinculadas a algum tipo de conspiração:

1. Elvis Presley: Será que não morreu mesmo?

2. Marilyn Monroe: O velho e famoso caso de queima de arquivo. Dividiu a cama com tanta gente influente que deve ter escutado muita coisa que não devia.

3. Princesa Diana: Melhor um príncipe Charles viúvo do que chifrudo.

4. Paul McCartney: “Paul is dead”, e foi substituído por um sósia em 1966.

5. Tancredo Neves: O ex-futuro-presidente do Brasil foi morto no hospital onde estava internado. Glória Maria, repórter da Globo na época, viu quem matou Tancredo. Por esse motivo, hoje ela decide a hora que quer ou não apresentar o Fantástico, tira férias de dois anos e é a única jornalista rica que conheço.



Dona Fernanda I
18 18UTC Janeiro 18UTC 2008, 3:20 PM
Arquivado em: Nao era pra contar

- Que feio duas meninas tão bonitas mentindo desse jeito!

Eu já não gostava muito do cara do 403 e ele ainda me larga uma destas. Eu devia ter uns 12. A Diandra, minha irmã, 9. Era uma tarde de verão nas férias de verão. Estava superquente e nada de praia naquele começo de dezembro. O pai estava cheio de trabalho, e a casa em Nova Tramandaí teria que nos esperar até o natal.

Provavelmente este tenha sido o ano no qual ganhamos o Suky de presente. Um cachorrinho novinho em folha (com fita e tudo!) no dia 23. Honestamente, meu sonho de consumo na década passada. Apesar disso, o calendário contava apenas 10 dias no décimo segundo mês de 1999 e o jeito era brincar no pátio com a vizinhança.

O apartamento situado na avenida Engenheiro Ary de Abreu Lima, número 30, apartamento 401 (sei décor até hoje!) era a nossa casa na época. Tinha três dormitórios, dependência de empregada e sacada ampla. Ficava na esquina com a avenida do Forte. Não dava para assistir Caverna do Dragão com a janela aberta, nem se colocasse no último volume da tv. O barulho dos ônibus, carros, motos e sirenes era constante.

Os vizinhos do momento eram o Fábian e a Melanie, do 404, e a Thaís, do 501. Naquela tarde a brincadeira escolhida era amarelinha. Sendo eu a integrante mais experiente da trupe, marquei os quadrados com giz no chão. As meninas escolheram as pedrinhas para o jogo e o Fábian só queria saber de fazer guerra com cinamomos.

Visto que o sexo feminino estava em maioria, o menino foi ignorado. Seguimos com o jogo, e eu já estava na quarta casa. O Fábian subiu para seu apartamento, mas logo desceu novamente. Estava ele parado no hall de entrada do edifício Dona Fernanda (sim, o prédio tinha meu nome!) com dois baldes da água. “Pra quê isso, Fábian?”, perguntou indignada a irmã da peste, Melanie.

Foi então que a aguaceira sucedeu-se. Um corre de lá e pra cá, pois ninguém queria se molhar. O bandido nos acertou com água, mas nem nos importamos. Estava muito quente para brigas. Aliás, o seu objetivo central era destruir meus riscos com giz no chão. E ele obteve sucesso.

Oito litros de água desperdiçados depois, o Fábian voltou para casa. A Melanie correu atrás dizendo que ia contar tudo para a mãe dela. A Thaís foi trocar de roupa. Ficamos eu e minha irmã sentadas na escada esperando os amiguinhos voltarem. Foi nessa hora que chegou o cara do 403, o antigo apartamento da Fernanda Ferrari, chegou.

- E quem fez essa molhação aqui?

- Foi o Fábian, tio.

- Que feio duas meninas tão bonitas mentindo desse jeito!

E lançou um olhar de reprovação enquanto subia as escadas. Dessa vez, a culpa da bagunça não era minha, nem da minha irmã. Até hoje o tio deve pensar que sou uma malqueira que costuma encharcar saguões de prédios. Ou, então, provavelmente, ele nem lembre mais que existo.