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Na semana que precede o aniversário acontece o chamado “inferno astral”. O quase aniversariante briga com o mundo, faz cara feia, não sente vontade de falar e não entende o motivo de tanta melancolia. A situação é passageira. Basta assoprar as velinhas e o inferno acaba. Os astros voltam ao lugar e um novo ano começa.
No dia 21 de dezembro de 2007 faço 21 anos. Confesso que posso me gabar ao dizer que sonho com essa data há duas décadas – talvez um pouco menos, pois bebês não têm consciência sobre o dia do próprio aniversário. Fazer 21 anos no dia 21 só acontece uma vez na vida – e não é para qualquer um!
2007 foi um ano maravilhoso. Trabalhei na televisão. Apareci na televisão. Fui âncora de um telejornal! Conheci pessoas maravilhosas e fiz amizades incríveis. Dancei muito, cantei muito, bebi muito. Torci o nariz, mas acabei indo na fonoaudióloga tratar meu problema com érres e éles. Consegui um estágio super divertido e acabei o primeiro semestre de Geografia! Fui multada pela primeira vez, mas não bati o carro nenhuma. Aproveitei o carnaval, viajei nos feriados, marquei presença no Rodeio Universitário de Bagé e fui até para Belo Horizonte! Peguei um G2 por ser preguiçosa demais e fui assistente de Direção no meu filme.
Com 20 anos cansei de falar inglês. Só speak english quando é realmente necessário. Abri minha segunda conta no banco e ganhei meu primeiro cartão de crédito – o qual só uso no débito. Concluí que meu alemão está enferrujado e voltei a usar o Skype. Perdi noites de sono fazendo trabalhos e ganhei outras fazendo festa. Percebi que vale a pena cursar duas faculdades. Não me importei em acordar todo dia às seis e meia da manhã e só voltar quase meia-noite para casa. Ainda não desisti da chapinha, mas agora só uso shampoo sem sal.
No fim das contas, esse foi o melhor ano da minha vida e eu tenho medo de somar mais 1 à minha idade. Seria bom se meus 20 anos durassem mais 20. Mas como isso não é possível – e mesmo se fosse, preferiria o tele transporte à máquina do tempo -, continuo curtindo o presente. Aliás, definitivamente, parei de planejar o futuro. A única coisa que sei é que as férias (com certeza) serão o máximo, mesmo que eu esteja trabalhando durante a maior parte delas.
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Meu nome é Bárbara e sou veterinária. Minha história começa e termina em uma segunda-feira. Estava eu indecisa, pensando na vida e não sabendo que rumo tomar. Até que a vista noturna da cidade me iluminou: meu negócio são gatos e cachorros. Desde criança, não resisto aos felinos. Manhosos, independentes e recatados, seguem uma invejada filosofia de vida. Apesar disso, depois de tantos arranhões, admito que comecei a prefir os cachorros.
Descendentes dos lobos, os cães chamam atenção pelo instinto de sobrevivência apurado. Malandros, amantes das ruas e latas de lixo, costumam latir sempre que necessário, mas só atacam quando se sentem seguros o suficiente. Não se adaptam muito bem as regras e costumam fuçar no quintal alheio. Não admitem que invadam seu território, mas pregam a liberdade e o uso coletivo.
Enfim, um ano e meio antes da primeira segunda-feira, eu decidi ser veterinária. Abomino o uso de coleiras e sou a favor da castração. Os donos não têm direito de decidir até onde o cachorro deve ir. Por mais irracional que seja, se o cão é fiel, não há porque cercá-lo ou enforcá-lo, ele sempre retornará. Apesar disso, muitas pessoas usam de técnicas de aprisionamento para ter o cãozinho sempre a seus pés. Tolice ou inocência humana, animais têm vontade própria e colocam os instintos sempre na frente.
“Peque por tudo, menos por ingenuidade”. Nunca esqueço do dia em que o mestre de cabelos brancos entrou na sala e falou sobre o que tomei como a regra mais importante da minha vida. Eram dez ao total, só consegui guardar a primeira. Apesar disso, às vezes ainda peco
Na segunda segunda-feira, confirmei minha decisão: Fiz a escolha certa. O trabalho me ensinou a conhecer pessoas. A experiência me alertou aos perigos da profissão. A faculdade me rendeu bons conselhos. Porém, muitas vezes a intuição falha. E são nesses momentos que cometo pecados dos quais não me arrependo.
Aprendi que se o cavalo não vai ao pasto, o pasto vai até ele. Percebi que prefiro dois pássaros voando a um na mão. Reconheço que cão que ladra também morde. Além disso, a mentira tem duas pernas e geralmente não são tão curtas.
Embora não possa dizer que conheço muito bem o sentido da palavra “veterinária”, atento para um dos casos mais significantes que atendi. Era terça-feira de 28ºC. O chamado de emergência me fez largar meus afazeres e atender ao celular que deveria estar no silencioso. Depois de quatros “ois”, apelei: “E não vai dizer mais nada?”.
O problema era um cachorrinho. Tinha poucos anos de idade, mas já apresentada sintomas graves de condicionamento. Pensei: “Essas coleiras enforcadoras estão destruindo vidas!”. A dificuldade maior foi entender sobre o que o telefonema se tratava. Ora parecia que estava pedindo ajuda, ora passava a impressão que se conformara com o destino cruel.
Sou novata no meio, mas o resumo da história ilustra que ainda existem animais que se dão bem no circo: Adoram se exibir no picadeiro e se submetem a qualquer coisa por um amendoim. Levantam a patinha, fazem xixi no jornal e respeitam aqueles que obedecem. Nem sempre os acostumados ao cativeiro conseguem sobreviver soltos na selva. É muito mais conveniente comer todos os dias na mesma mão.
