Tudo o que eu tô afim de falá e ninguém tá afim de ouví


O café e o pebolim
1 01UTC Novembro 01UTC 2007, 11:09 PM
Arquivado em: Melhor calar a boca

Tudo começou na quinta-feira à tarde. O pessoal do PET passou lá no DAGE e pegou o Pebolim. Devem ter jogado fla-flu a tarde toda, ao invés de fazerem as tais pesquisas e organizarem os tais eventos. O pior é que eles não tem autorização para isso. Podem até ter autorização para brincar de futebol de mentirinha no horário do “trabalho”. Porém, eles não estão autorizados a entrar no DAGE, pegar a mesa de fla-flu comunitária e não devolver. Agora ela tá lá, trancada na sala do PET. Dá para espiar pelo vidrinho que tem na porta. Não dá pra ver se está quebrada. Só sei que ninguém tem a chave da sala e o intervalo da aula fica uma chatice sem uma partida.

Hoje é sexta. Dia de climatologia I com o professor foto-sensível. O Livi entra na sala, fecha as cortinas, desliga as luzes, liga o ar condicionado e o projetor. Fica passando aquelas lâminas escritas em 1930. Explica as correntes de jato estagnadas e os ventos alísios. Tanto faz se a força de Coriólis puxa para a esquerda no hemisfério norte ou faz a aguinha do vaso correr para a direita no sul. No momento eu tô me concentrando para reproduzir o desenho da Zona de Convergência Intertropical no meu caderno.

Décima sétima lâmina da manhã. “Vamô fazê um intervalo, professor?”, pergunta Felipe. “Só mais essa”, responde o mestre sensível à claridade. E lá vai ele explicar as monções da Índia. Procuro alguma coisa para me distrair naquela em meio a monotonia da aula, mas só encontro a antena de televisor que o professor usa para apontar os desenhos. Enfim, a explicação da alta siberiana termina e a porta se abre. É hora do intervalo.

Rumo ao meu banquinho verde sozinha. Na verdade, aquele banco que está próximo ao DAGE não é meu, é da UFRGS. Porém, eu o adotei e o tenho como meu objeto de estimação. Uma parada rapidinha no banheiro, quando a Taíse me liga para falar sobre o curta. “Já fez a decupagem, Fe?”, pergunta ela, com a voz suave de sempre. “Hoje à tarde eu faço. Até às 16, envio para todos por e-mail”, respondo eu, com a voz habitual de moça problemática. “Ai Taíse, tô num stress. Quinta-feira é foda. Eu tô fazendo a reportagem de tele praticamente sozinha..”, e a coitada escuta do outro lado. “Mas hoje eu ti envio isso, pode dexá. Já confirmou a lista de objetos?” e ela retruca perguntando se eu já chequei os meus e-mails hoje. Mas é óbvio que não entrei na internet! São 10 horas da manhã e eu tô num lugar que tem “Vale” no sobrenome! “Se a ligação cair é porque acabou a bateria do meu celular”. Um minuto e meio depois, a porcaria do Motorola me deixa na mão.

O banquinho verde já não parece tão confortável. Decido dar uma espiada no DAGE antes que eu enlouqueça aqui sentada. Afinal, onde estão meus colegas (veteranos)? Pois a bixarada tá toda ali na porta do Diretório Acadêmico da Geografia, discutindo alguma coisa que eu não entendo parada aqui embaixo dessa árvore.

“Foram eles, meu”, repete Marília indignada. Eu, com cara de confusa e pouco me lixando para a situação, me meto no assunto: “O que roubaram dessa vez?”, pergunto. “O intervalo não tem graça se é assim”, diz um dos meninos de 17 anos. “Se a mesa não tiver quebrada… ahhhhh, eu mato”, fala a moça do trigésimo lugar no vestibular de Geografia 2007, Marília. Fiquei pensando se ela queria que tivesse quebrada ou não (?!?).. gente doida! Meu pensamento tosco é interrompido por um comentário previsível: “E será que não tem ninguém do PET por aqui com a chave da sala?”, fala um dos nascidos em 89.

Cinqüenta segundos depois, não agüentava mais aquela ladainha. Era difícil acreditar que estavam passando os 25 minutos do recreio discutindo quem vai matar quem pegou o pebolim. Olhei para o Felipe (o menino que não sabe o que significa month) com olhos de socorro. Aquele olhar no qual se envia implicitamente uma mensagem: “Muda de assunto, por favor”. Provavelmente meu suplicio deve ter sido enviado em inglês, mas, mesmo desviando o olhar, ele trocou a pauta da roda: “Eu paguei dois reais pela cafeteira e nunca tomei um gole de café”, retrucou, tentando remediar o ódio dos colegas para com quem afanou o pebolim doado ao DAGE. Ainda bem que eu não contribuí com a cafeteira. A única coisa que doei para o DAGE foram 50 centavos para fazerem uns cartazes de divulgação da Desnortenha-se, uma festa da Geografia (cuja qual eu nunca fui) que acontece toda terça-feira à noite.

Enfim, o cafezinho substitui o futebol: “Um dia uma guria fez café e eu pedi um golezinho e ela disse NÃO!”, lamenta o garoto-do-mês (entendeu o trocadilho?). “Aquela cafeteira é muito pequena, deve fazer umas três xícaras de café só”, argumenta o quase-intelecutal Théo e seus agudos. “A Nana trouxe café esses dias”, retruca alguém, “Mas deve ter escondido”, responde outro qualquer. Nesse momento, o foco da conversa muda novamente. É hora de falar mal da FACED, a Faculdade de Educação da UFRGS. Quem quer lecionar, precisa aprender pedagogia, precisa passar pela FACED. “Não agüento aquelas mina falando besteira pra se mostrar pro professor”, garante um dos colegas que adora mostrar o chiclete enquanto fala. “Minas burras. Não calam a boca na aula”, garante novamente, deixando-me perceber que é de tutti-fruti.

“Vocês apóiam tanto o socialismo e não sabem nem dividir o café”, volto ao assunto inacabado. Oito segundos de silêncio depois, a mistura de japonês com alguma coisa responde: “Vai pra PUC, Fernanda, vai”. Algumas risadas e eu não me rendo. Ao contrário do que Diogo (Mainardi) sugeriu, não compro todas as brigas e discussões que despencam na minha frente. Ainda mais quando estou com sérios problemas, que não se resumem a uma mesa de pebolim e um gole de café. Sendo que meu horror (inexplicável) aos orientais é inexplicável. E, sendo assim, coitado do japa.

Desde o primeiro dia que eu vi ele, não fui com a cara. Aquele gurizinho redondo, de olhinhos puxados, sentado na escada e esperando quietinho o deboche dos veteranos me pareceu estranho demais. Quando li no papel “Ricardo sobrenome-estranho” e o apontei, ele virou a cabeça pro chão. Conclui que só podia ser ele o vigésimo quarto colocado do vestibular. Minha cisma com orientais não começou aí. Ela vem de antes. Adoro as meninas japonesas, chinesas e coreanas. Mas os indivíduos do sexo masculino me causam uma (estranha) sensação de estranheza. Enfim, não sou adepta da simpatia quando em presença de olhos puxados.

“Pelo menos na PUC ninguém briga por café”, decido não me entregar, seguindo o conselho do ícone Mainardi. Marília me olha com cara de quem pensa que em faculdade particular só estudam magnatas. O Renan vira meio de costas, como se preferisse não ter escutado meu comentário. O japonês faz cara de debochado (ou será que essa é a única cara que ele tem?). Não me importo. Respiro fundo três vezes, como minha fonoaudióloga ensinou: “Fe, tu não tem idéia de quanto isso acalma”, relembro mentalmente do conselho.

O banco verde parece até mais próximo, mas é hora de voltar para a aula-sonífera. O causo do pebolim não se resolve e a Marília volta a afirmar que matará quem o trancou na sala do PET. Dizem por aí que ela só ganhou o primeiro campeonato de fal-flu do DAGE pois tinha como dupla o Tinga. Por mais feminista que eu seja, até acredito na teoria. Esse é o típico caso no qual os homens deveriam se preocupar com o futebol e as mulheres com o café.